camperiadas

Nós de Lenço
Nó simples ou chimango


PASSO 1



PASSO 2

PASSO 3
PASSO 4

Bah... Depois de trocentos anos desenhando este diagrama
bem que tu podias mandar um mail agradecendo, hein?!

Quatro cantos, rapadura ou maragato
PASSO 1
PASSO 2

PASSO 3
PASSO 4

Acredite, meu diagrama é meia-boca, mas o nó
sai lindaço uma barbaridade!!


Namorado
PASSO 1
PASSO 2

PASSO 3
PASSO 4

Bah... fui inventar de desenhar eletronicamente e
não ficou tão bom, mas ainda podes entender como fazer!



Pachola
PASSO 1
PASSO 2

PASSO 3
PASSO 4

PASSO 5

Barbaridade, tu já tens QUATRO nós
pra se enfeitar... mas vem mais, vem mais...

 




A Origem da palavra Gaúcho


As pessoas normais costumam fazer uma só vez ao ano as comemorações de aniversário. Eu, por apaixonado ou exótico, pedi que ela deixasse eu comemorar mensalmente o aniversário dela; e ela permitiu. A cada dia 21, quando saio do escritório ao final do expediente, passo no açougue e pego uma boa costela e passo no súper e trago umas cervejas para a geladeira. A reunião se faz na churrasqueira do meu galpão simbólico, num canto do pátio. Se o tempo está ruim, pode ser que não apareça quase ninguém. Se a noite está linda, preparamos o espírito para receber maior número de amigos.
Ninguém é convidado formalmente; mas basta que alguém seja relacionado com nossa casa para estar informalmente avisado de que será bem-vindo nas noites de 21. Os mais curiosos perguntam qual a razão de ter-se escolhido esse dia e qual o motivo da reunião. Desconverso. E nem mesmo nossos dois filhos sabem que escolhi essa fórmula para renovar, ao menos rima vez por mes, meus agradecimentos a Deus por ter me dado uma companheira tão bacana, tão dedicada e fiel. As coisas de amor devem manter-se em segredo.
Alguns dos nossos amigos são mais assíduos às reuniões. Quase sempre vem o Heleno, carregando o violão e a bonita da Fátima. O Fraga, com seus poemas haicais. O Paolo Mellone, com suas inquietações de marketing e sua postura de visconde rio-grandino. E o Gregório, com a filha Zenaide.
A presença do negro Gregório talvez exija uma pequena explicação.
Ao tempo do meu bisavô, os crioulos Sousa eram nossos escravos. Ao tempo do meu avô, tornaram-se agregados da fazenda, plantando em regime de terça-parte. Ao tempo do meu pai, começaram a se desligar de nossa terra. Ao meu tempo, vários deles já moram em Porto Alegre.
Dos crioulos Sousa que hoje moram em Porto Alegre, só o mais velho se desencaminhou: é aquele que anda aparecendo nas crônicas policiais com o nome de "Crioulo Rengo". O mais moço joga nos juvenis do Internacional e está pintando para o próximo campeonato. Depois vem o meu afilhado, que é programador de computador na PROCERGS.
A Rosália, sempre bonita, casou com um motorista do Banco Sul-Brasileiro, está muito bem. E o Gregório se constitui numa surpresa, pois lá em nosso município nem se ouvia falar em batuque: é pai-de-santo. A filha dele, a Zenaide, é muito bem educadinha; está completando o 12 grau no Colégio Nossa Senhora da Glória.
Mais que o meu próprio afilhado, é o Gregório quem mantém maior relacionamento conosco. Herdou um certo atavismo de subserviência. Faz-nos agrados, traz presentes para meus filhos, sempre pergunta se estamos precisando de alguma coisa em que ele possa ser útil. Para retribuir, eu às vezes compareço às grandes festas no terreiro dele, quando há homenagem a Xangô ou Iemanjá, embora me desagradem tais superstições de baixo espiritismo.
Há cinco meses, em julho, na reunião do dia 21, estávamos molhando a garganta à espera de que o churrasco ficasse bem assado, e o Mellone me perguntou se eu estava fazendo mais alguma nova pesquisa em História ou Folclore - que são duas matérias que eu cultivo por hobby. Respondi que eu gostaria muito de poder apresentar ao Congresso Tradicionalista, em Santo Antônio da Patrulha, uma contribuição séria a respeito da origem da palavra "gaúcho". Pois afinal - argumentei - não se pode aceitar que milhões de pessoas cultivem o gauchismo e desconheçam a origem da palavra, seu sentido, seu valor semântico.
- E qual é a etimologia de "gaúcho"? - perguntou o Fraga, com os olhinhos cintilando, talvez em pré-inspiração para um novo poema.
- Pois aí é que está. decepcionei-o. - Ninguém sabe.
Para que a coisa não ficasse parecendo conversa de doido, entrei em detalhes. Nunca se encontrara uma etimologia plenamente convincente. No Rio Grande do Sul difundiu-se uma explicação lendária, sem nexo, que junta o guarani guahu, "uivo do cão", com o pronome guarani che, "meu", e dessa soma resulta algo completamente diferente: "gente que canta triste" (?). No Uruguai os estudiosos se dividem em duas correntes de opinião.
Uma, do falecido professor Buenaventura Caviglio, reporta-se ao instrumento garrocha, espécie de foice com que outrora cortavam o jarrete dos bois durante as caçadas de couro; garrucho seria o homem portador de garrocha; e como os guaranis não conheciam o som rr, passaram a dizer guahucho.
A outra corrente, liderada pelo professor Fernando Assunção, reporta-se à palavra francesa gauche (pronuncie-se "gôche"), que significa esquerdo e, por extensão, tudo o que não é direito; daí o galicismo espanhol gaucho, aplicado em Geometria e Arquitetura para significar aquilo que está fora de nível; e o primitivo gaúcho era considerado, dentro da superfície ou do plano social, como um defeito da raça espanhola.
- E na Argentina, como é que é? - perguntou a Fátima.
Respondi que, em 1925, um jornal de Buenos Aires promovera uma grande mesa-redonda para esclarecer em definitivo o tema, e os trinta intelectuais presentes só o que conseguiram foi uma confusão maior que antes, ao apresentarem uma ponchada de versões diferentes.
- Só o que se sabe mesmo - fui eu encerrando o assunto - é que o primeiro registro da palavra se deu em 1787, quando o matemático português Dr. José de Saldanha andou por aqui como integrante da comissão demarcadora de limites na banda oriental do Uruguai.
Numa nota de rodapé em seu relatório de trabalho, esclareceu, e eu até já decorei:
"GAUCHE, - palavra espanhola usada neste País Para designar os vagabundos ou ladrões do campo que matam os touros chimarrões, tiram-lhes o couro e vão vender ocultamente nas povoações".
- Mas então é uma palavra pejorativa... comentou o Fraga, decepcionado e já desinspirado.
- Talvez sim, talvez não. De qualquer maneira, pela explicação do demarcador Saldanha a gente ficou sabendo que não é palavra portuguesa. Não era conhecida nem pelos portugueses do Reino nem pelos colonos das ilhas dos Açores.
E como o churrasco já estivesse bem no ponto, antes de ir servindo-o eu pus o ponto final:
- O Congresso está se aproximando e acho que vou terminar não apresentando tese nenhuma. Mas a nossa cultura ficaria muito grata a quem pudesse esclarecer o intrincado enigma. Se algum de vocês puder me ajudar, nada de constrangimento: me ajude.
À saída, o Gregório perguntou-me com certa humildade:
- Não ficarias chateado se eu te ajudasse a descobrir a origem da palavra gaúcho?
Compreendi: ele estava querendo fazer uma das suas bruxarias, sabia da minha incredulidade e, zeloso como era, não queria me ofender com uma intromissão não-consentida. Dei uma risada:
- Vais me dizer que também tens folcloristas entre os teus orixãs?!
- Não posso afirmar nem sim nem não, pois até hoje não precisei procurar nenhum. Mas temos alguns encostos que foram pretos africanos, índios, caboclos, boiadeiros, ao tempo do desbravamento territorial do Rio Grande, e talvez possam me informar alguma coisa.
- Não faço objeção: estás autorizado a convocar quem bem entendas.
- Se, por acaso, eu obtiver alguma mensagem, peço para a Zenaide passar para o papel e vir te trazer.
- x -
Já faz uns dois meses que, certa manhã, no momento em que eu saía de casa para ir trabalhar, apareceu Zenaide e entregou-me uma folha, arrancada de seu caderno escolar.
ORIGEM DA PALAVRA GAÚCHO
Se os brasileiros fossem os primeiros a chegar ao planeta Marte, e lá encontrassem maricanos vivendo na roça, não inventariam uma palavra nova para identificá-los, pois já têm a palavra: roceiro, matuto ou caipira.
Quando os navegadores europeus, a caminho das índias Orientais, descobriram as Índias Ocidentais, para aqui transplantaram a palavra pela qual já identificavam os habitantes autóctones: índios.
Quando o Rei da Espanha mandou casais de agricultores das Ilhas Canárias povoarem a recém-fundada Montevidéu, eles transplantaram a palavra pela qual identificavam o habitante autóctone das ilhas.- guanche, ou guancho.
O Dr. José de Saldanha estava certo ao dizer que se tratava de uma palavra espanhola. Só que não era o espanhol do continente: era o espanhol das Canárias.
Temos certeza de que foi esta a origem da palavra gaúcho, com pequena distorção de pronúncia: guanche, ou guancho.
(Informações dos caboclos Maicá, Saltein e Perdiz, do preto velho Catarino e do colono Juan Bermúdez, concatenadas pelo folclorista Apolinário Porto Alegre e psicografadas por Pai Gregório de Xangô durante o batuque da noite de hoje, 5 de outubro de 1977.)
Intrigado, fui ao Consulado da Espanha perguntar se havia algum canário residente em Porto Alegre. Indicaram-me o Sr. José Juan Morales Gutierrez, diretor de restaurantes da cadeia hoteleira Plaza. Convidei-o para tomar um uísque, ele foi muito simpático, eu não lhe disse realmente que estava tratando de assunto provocado por um pai-de-santo, mas conduzi o papo até que ele me pronunciasse o nome dos habitantes rurais das Canárias. A pronúncia é dificil de reproduzir em português.
Mais parece ganche, ou gantcho; mas também parece ser guantcho, gãotche, gaucho,guahuchi.
Disse-me o Sr. José juan Morales Gutierrez que, se eu quisesse saber mais coisas sobre as Canárias, escrevesse ao Prof. Néstor Alamo, uma sumidade.
Somente hoje pela manhã chegou a resposta à minha carta:
"Las Palmas de Gran Canária, 1O-XII-77.
"Distinguido señor: Espero me perdone usted; he estado de viaje primero y luego he tenido una serie fatigosa de trabajos que me ha impedido el atender a mis compromisos.
"Contesto a la suya de 7 de octubre anterior. Debo decirle que la palabra ganche no existe. Creo que ella debe corresponder a guanche, que sí tiene existência. Esta voz sirve a los habitantes prehispánicos de estas islas. Esta raza tuvo existencia hasta la mitad primera del siglo XVI aunque ya mesclada con los europeos que vinieron a civilizarnos. Hoy, la raza, como tal, está extinguida o casi, aunque en el sur de Tenerife aun se pueden observar débiles vestígios de ella. Acaso en las montañas de las otras islas también.
"Con mis deseos de que tenga una feliz Navidad y el mejor año 78, le saluda
(assinado) Néstor Alamo".
- x -
Ainda há tempo para ultimar e apresentar a tese, agora mês que vem, em Santo Antônio da Patrulha.
Mas tenho certeza de que o plenário vai cair na gargalhada quando me perguntar qual a fonte em que me baseei e eu invocar por testemunhas nada menos que cinco mortos: três caboclos, um negro e um colono canário que por aqui andaram há dois séculos ou mais.
Não, não vou apresentar tese nenhuma.
É claro que a cultura tradicionalista vai sair perdendo. Mas, ficando calado, salvo o meu pêlo e não vou passar por maluco.
Devo manter em segredo, para sempre, esta minha descoberta sobre a verdadeira origem da palavra gaúcho.


 A Revolução Farroupilha

Um dos temas mais comuns nos livros de História do Brasil é a Guerra dos Farrapos. Observado a partir da perspectiva central agro-exportadora brasileira, o movimento farroupilha riograndense perde qualidade, veracidade e atinge o prosaico.

Mesmo na historiografia e na literatura produzidas no Rio Grande do Sul há distorções que confundem os fatos. Alguns fazem apologia dos heróis e condenam os traidores. Outros tentam desmistificar, mas pouco acrescentam ao conhecimento do contexto, às motivações e conseqüências do movimento dos farrapos. Colocam-se como discussões o caráter separatista ou não do movimento, gerando posições apaixonadas ou constrangedoras para a problemática da identidade regional e nacional.

Estudos históricos e produções literárias mais recentes têm sido mais objetivos. O movimento farroupilha rio-grandense fez parte de exigências locais e esteve inserido no jogo das questões nacionais e internacionais típicas da primeira metade do século XIX.

Com base nessa historiografia mais recente, pretende-se compreender as relações do movimento farroupilha no contexto brasileiro, platino e do mundo ocidental. Além disso, responder a indagações como: quem fez e por que fez a guerra? Quais os interesses em jogo na eclosão e duração do movimento? De que forma foi realizada a paz e por que ela apresenta um certo espírito de "comemoração" entre os legalistas e insurretos? Finalmente, criticar as reivindicações dos farrapos a partir da constatação dos limites da pecuária rio-grandense.
A época e suas relações com a revolta farroupilha
Naquela época, o liberalismo econômico estava derrubando estruturas antigas, calcadas nos monopólios e regimes políticos autoritários e absolutistas. O constitucionalismo surgia como fundamental à história da humanidade. No entanto, os processos de emancipação política e de formação do Estado Nacional brasileiro foram centralizadores e autoritários. Os regionalismos não foram respeitados. Não ocorreram autonomias tanto para interferirem na indicação dos administradores provinciais como na capacidade de legislar em assembléias regionais.

As elites regionais se ressentiram com a dissolução da Assembléia Constituinte de 1823, a outorga da Carta de 1824, as políticas tarifárias não protecionistas, a censura e as perseguições políticas aos inimigos da corte do Rio de Janeiro. Algumas dessas elites recorreram à insurreição armada, sempre reprimidas e vencidas pelo centralismo monárquico. Foram as classes dominantes do Pará e do Amazonas que iniciaram a Cabanagem. O mesmo ocorreu na deflagração da Balaiada, no Maranhão. Nessa e em outras revoltas os setores dominantes foram surpreendidos pela participação crescente dos segmentos dominados. A emergência dessas camadas preocupava as elites porque elas extrapolavam os objetivos iniciais dos movimentos, voltando-se contra a estrutura de dominação social. Outras revoltas, como a dos farrapos, não permitiram que setores mais populares, e dominados socialmente, extrapolassem os objetivos estabelecidos pelas elites locais.

A Guerra dos Farrapos foi um movimento da classe dominante rio-grandense, em oposição ao centralismo exercido pela corte do Rio de Janeiro, e só.
Participação de grupos sociais
A maior parte dos criadores e charqueadores engajaram-se como militantes ou financiando a insurreição. Os comerciantes, em sua maioria, assumiram posição defensiva ao lado do governo monárquico, chamados de legalistas. Intrigas entre os chefes políticos pecuaristas produziram deserções ou posicionamentos opostos ao longo do movimento.

Os habitantes de Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, na época as principais cidades do Rio Grande do Sul, nunca aderiram, em sua totalidade, ao movimento. Cabe destacar que Porto Alegre, a principal base de sustentação dos legalistas, ganhou o título de "mui leal e valorosa" do monarca brasileiro. A República Rio-Grandense criada no dia 11 de setembro de 1836, teve como sedes administrativas as cidades de Piratini, Caçapava e Alegrete, expressando nas mudanças a fragilidade estratégico-militar do movimento.

A revolta teve mais apoio no meio rural (junto a pecuária extensiva). O movimento não foi acolhido pelos imigrantes germânicos que já iniciavam a ocupação da encosta do planalto meridional (São Leopoldo, Montenegro, Caí e arredores). Nas cidades, os comerciantes e os segmentos sociais, em geral, dividiram-se, mas pouco fizeram a favor ou contra. O movimento farroupilha rio-grandense nunca dominou um porto, por tempo razoável, para escoar produtos e, assim, garantir a sobrevivência imediata dos insurretos. Realizaram a tomada de Laguna, buscando alcançar um porto mais permanente, mas foram derrotados e expulsos, em pouco mais de três meses.
A questão dos "heróis"
A Guerra dos Farrapos tem garantido à historiografia oficial e à ideologia dominante extensa "galeria de heróis", muitas vezes equiparados aos semideuses, e a guerra equiparada a uma "epopéia". Outras vezes, os personagens são denunciados como "oportunistas", "contrabandistas", etc. Certamente os episódios históricos de 1835 a 1845 podem ensejar referenciais importantes à problemática de símbolos e identidades sociais e nacionais. Mas é necessário compreender que o movimento dos farroupilhas passou por análises teóricas relacionadas ao republicanismo, constitucionalismo e cidadania. Vários foram os pensadores que se ativeram aos temas, deixando registros dessas discussões. Mais do que isso, os "heróis" não podem ofuscar o que os farrapos não visualizavam: uma sociedade entravada, com uma pecuária debilitada, sem perspectivas de avanços no mercado altamente competitivo que se desenvolvia a partir do século XIX. Além disso, o movimento farroupilha lutou pelos interesses da classe dominante pecuarista rio-grandense, descaracterizando-se, portanto, uma visão mais abrangente, com justiça distributiva.

Bento Gonçalves da Silva, Bento Manuel Ribeiro, Davi Canabarro, Antônio de Souza Neto e muitos outros eram pecuaristas ou estavam envolvidos com a pecuária. Todos lutaram nas guerras empreendidas por lusos-brasileiros na bacia Platina, desde a conquista militar dos Sete Povos das Missões, passando pela Guerra Cisplatina. Depois de 1845, muitos continuaram lutando com os vizinhos platinos. Merece destaque a figura de um mercenário, Guiseppe Garibaldi, que também lutou ao lado de Rivera, no Uruguai, e participou das guerras pela unificação da Itália. Outros mercenários participaram da Guerra dos Farrapos ou estiveram engajados nas tropas inimigas (legalistas).
Insurreição ou Revolução?
A insurreição que os farrapos preferiam chamar de revolução durou dez anos. Fazer revolução significava avançar na História, mesmo para os segmentos dominantes doinício do século XIX. Aliás, a revolução implicava o uso da força, legitimando o movimento. Os exemplos das elites dominantes da América do Norte, França e Inglaterra estimulavam processos revolucionários com objetivos de destruir o arcaico, o antigo, o ultrapassado. Só que os farroupilhas não questionaram a escravidão em seu sistema produtivo nem ao menos tiveram condições de ensaiar planos de liberdade e crescimento econômico. Identificaram-se mais com o conflito centro versus periferia. Por isso, é incorreto chamar o movimento de revolução. Foi uma guerra civil entre segmentos sociais dominantes.

Além disso, a escravidão era a "doença" que o paciente não aceitava ter. Preferia dirigir suas críticas à falta de protecionismo alfandegário. Esquecia-se ou não queria entender que a estrutura produtiva da charqueada rio-grandense retraía a capacidade de competir com os similares platinos. Este sim era o principal problema da pecuária rio-grandense, que só teve espaço no mercado enquanto os concorrentes platinos estavam envolvidos em guerras contra o domínio espanhol ou na disputa pelo controle do Estado Nacional. Foi sintomático: de 1831 em diante, os platinos entraram em período de relativa paz, voltaram a criar gado e produzir charque sem os inconvenientes das guerras. Com isso, o charque rio-grandense entrou em colapso. Em 1835 eclodia o movimento farroupilha.
Resultados do Movimento
Por dez anos, a guerra civil prejudicou o setor pecuarista.

As perdas foram muito maiores do que os lucros políticos e econômicos do movimento. Os pecuaristas saíram mais endividados junto aos comerciantes e banqueiros. Propriedades rurais, gado e escravos foram perdidos e tornou-se muito difícil repô-los posteriormente.

A paz honrosa de Poncho Verde, em 1845, acomodou as crescentes dificuldades dos farrapos, pois não interessava ao governo monárquico reprimir uma elite econômica. Aos oficiais do Exército farroupilha foram oferecidas possibilidades de se incorporarem aos quadros do Exército nacional. Líderes presos foram libertados e a anistia foi geral e imediata.

Antes e depois da Guerra dos Farrapos, os rio-grandenses lutaram contra os platinos, defendendo militarmente os interesses da coroa portuguesa e, a partir de 7 de setembro de 1822, os da corte brasileira. Ou seja, interessava ao governo do Rio de Janeiro assinar o acordo de Poncho Verde porque a política externa brasileira ainda necessitaria dos serviços militares (sempre disponíveis) da Guarda Nacional formada por estancieiros e peões rio-grandenses.

Quanto à política tarifária, medidas sem expressividade e pouco duradouras tentaram transparecer um melhor tratamento dado ao produto nacional. A estrutura produtiva ultrapassada (baseada na escravidão) não foi alvo de preocupações.

A sensação que existe hoje, passado um século e meio, é a de que as motivações daquele movimento não foram superadas. Por um lado, o Rio Grande do Sul continua em situação de mando político dependente, com uma economia pouco beneficiada no processo de acumulação capitalista que se reproduz no Brasil. Por outro, o Rio Grande do Sul não consegue "enxergar o próprio umbigo" e compreender que suas dificuldades resultam da forma como tem sido realiada sua inserção como sócio menor no sistema capitalista brasileiro. Expressando-se de forma figurativa, o Rio Grande do Sul continua produzindo e vendendo charque, subsidiando (perifericamente) o funcionamento do mercado exportador brasileiro e sem cacife no processo político-decisório nacional.
Manifestos de Bento Gonçalves
"Compatriotas! O amor à ordem e à liberdade, a que me consagrei desde minha infância, arrancaram-me do gozo do prazer da vida privada para correr covosco à salvação de nossa querida pátria. Via a arbitrariedade entronizada e não pude ser mais tempo surdo a vossos justos clamores; pedistes a cooperação de meu braço e dos braços que me acompanham, e voei à capital a fim de ajudar-vos a sacudir o jugo que com a mão de um inepto administrador vos tinha imposto uma facção retrógrada e antinacional."

"A inaptidão que desde logo mostrou para tão elevado cargo e a versatilidade de caráter do Sr. Braga favoreceram os desígnios dos perversos, que nele acharam o instrumento de seu rancor contra os livres; e no poder anexo a presidência o meio de saciar suas ignóbeis vinganças."

"O Governo de sua Majestade Imperial, o Imperador do Brasil, tem consentido que se avilte o Pavilhão Brasileiro, por uma covardia repreensível, pela má escola dos seus diplomatas e pela política falsária e indecorosa de que usa para com as nações estrangeiras. Tem feito tratados com potências estrangeiras, contrários aos interesses e dignidade da Nação. Faz pesar sobre o povo gravosos impostos e não zela os dinheiros públicoos... Faz leis sem utilidades públicas e deixa de fazer outras de vital interesse para o povo... Não administra as províncias imparcialmente... Tem conservado cidadão longo tempo presos, sem processo de que constem seus crimes."
Proclamação
Sala das sessões da Asembléia Constituinte e Legislativa
(Alegrete, 1843)

RIO-GRANDENSES!

Está satisfeito o voto nacional. Chegou finalmente a época em que vossos Representantes reunidos em Assembléia Geral vão formar a Constituição Política, ou a Lei fundamental do Estado. Desde o primeiro período de nossa Revolução, desde o primeiro grito de nossa Independência, é este sem dúvida um dos sucessos mais memoráveis, que deve ocupar um dia as páginas da história. Dentro em pouco tempo o edifício social será levantado sobre bases certas e inalteráveis.

...
Concidadãos! Os destinos da Pátria dependem principalmente de vossa constância e valor. Nesta luta de liberdade contra a tirania vós tendes dado um exemplo heróico do mais nobre, desinteressado patriotismo, e vossos dolorosos sacrifícios assaz provam, quanto pode uma Nação generosa, e magnâmica, que jurou não ser escrava.

PERSONAGENS

Bento Manuel Ribeiro




Significação histórica

Prestou relevantes serviços militares, de soldado a marechal do Exército Imperial, à Integridade e Soberania do Brasil, colónia e independente, nas guerras do Sul de 1801, 1811-12, 1816 e 1821, 1825-28 e 1851-52, onde se firmou entre as maiores espadas de seu tempo. Foi militar de raros méritos como estrategista, tático, profundo conhecedor do terreno e grande capacidade de nele orientar-se. Possuiu grande capacidade de liderança em combate e de bem combinar Infantaria e Cavalaria, além de conhecimento apreciável da psicologia de seus homens e dos adversários. Durante a Revolução Farroupilha, em função de seu temperamento singular, interesses e segundo Sanmartim, mentalidade "mais caudilhesca do que militar", por seguir as suas próprias regras, ao invés das dos governos que serviu, adotou posições até hoje controvertidas e a aparentemente inexplicáveis. Isto, ao combater, ora ao lado dos farrapos, ora ao lado dos imperiais, mas sempre desequilibrando, acentuadamente, o prato da balança, em favor da causa que defendia. Inicialmente como farrapo, depois como imperial, novamente como farrapo e, finalmente, depois de mais de dois anos de neutralidade, lutou pelo Império até o final da Revolução, "como vaqueano-mor de Caixas". Por esta razão, entrou para a História do Rio Grande do Sul como a mais controvertida personalidade do ponto de vista político e psicológico, com defensores a explicar seus gestos e acusadores impiedosos, até na poesia popular da época. Mas é Bento Manuel um raro caso histórico de alguém que iniciando a vida como pião de estância e soldado miliciano por excepcionais méritos militares e pendores comerciais, tenha atingido o posto de marechal do Exército Imperial e general da República e acumulado enorme fortuna, cercada, inclusive, pela lenda gaúcha da Salamandra do Jarau, local da estância do bem-sucedido paulista de Sorocaba. Seu biógrafo Olhynto Sanmartim e o general Souza Docca o ensaiaram do ponto de vista psicológico. Fornecem dados interessantes para os psicólogos explicarem melhor Bento Manuel no Tribunal da História e, particularmente, sua segunda adesão à República Rio-Grandense, fato que teria merecido de um seu filho este desabafo: "Foi uma nódoa na família que não se lavará com toda a água do Ibirabiutã." H1>Naturalidade, ascendência e perfil militar

Bento Manuel nasceu em 1783, filho do tropeiro Manuel Ribeiro de Almeida, na histórica cidade dos tropeiros, Sorocaba-Sâo Paulo. Com 7 anos veio para o Rio Grande como piá da estância do major Antônio Adolfo Charão (corruptela Scharam), em Rio Pardo. O major Charão era dos Dragões do Rio Pardo e natural do Rio de janeiro, filho do médico alemão João Adolfo Scharam e casou com a filha do mineiro João Carneiro da Fontoura, então capitão dos Dragões de Rio Pardo, com ilustre descendência. Assim, aos 18 anos, nas fileiras do citado regimento que ingressara como soldado raso em 1800, teve início a cintilante e muito movimentada carreira de Bento Manuel que durou 54 anos e que foi encerrada no posto de marechal do Exército Brasileiro. Bento Manuel pelo lado materno descendia do bandeirante Anhanguerra e do português João Ramalho e, pela linha paterna, de Pedro Taques. Ligado à família Bueno, de Amador Bueno que fora proclamado rei de São Paulo, segundo se conclui de Olhynto Sanmartim. Pelos Bueno ligava-se por parentesco a Antônio Netto, ambos assim de boa cepa. Bento Manuel casou em 15 de setembro de 1807, em Caçapava do Sul, atual, com Maria Mâncio da Conceição. Deste consórcio nasceram 11 filhos (5 mulheres e 6 homens). Sua filha, Benevenuta, casou com o pernambucano, mais tarde general Victorino José Carneiro Monteiro e Barão de São Borja, do qual descendia o general Bento Manuel Ribeiro Carneiro Monteiro, destacado Chefe do Estado-Maior do Exército que criou a Missão Indigena da Escola Militar de Realengo, em 1919.

Nas guerras do Sul 1801-1824

Em 1801, ao comando do coronel Patrício Correia Câmara, tomou parte, corno soldado de Milícias ao lado dos Dragões, da expulsão dos espanhóis de Batovi (São Gabriel primitivo), fortaleza de Santa Tecla (reocupada) e da concentrarão defronte o passo N.S. da Conceição do Jaguarão (Centurión) para fazer frente a uma possível reação do Marquês de Sobremonte, governador de Montevidéu, contra a expansão do território, do Piratini ao Jaguarão. Em 1808 foi promovido a furriel de Milícias. Mas voltou-se também para a conquista da fortuna o que conseguiu ao final de algum tempo. Tornou-se um dos maiores e até lendários estancieiros rio-grandenses. Lendário, através da lenda da Salamandra do Jarau, colhida por J. Simões Lopes Neto. Na guerra 1811-12 se destacou no ataque a Paissandu, na liderança de 60 milicianos. Isto lhe valeu a promoção a tenente, em 17 de dezembro de 1813. Na guerra contra Artigas 1816-17, o tenente Bento Manuel evidenciou o seu valor, ousadia e intrepidez em diversas ações. Foi citado nominalmente em diversas ordens-do-dia. Por haver derrotado em Belém, na linha do Quarai, em 7 de setembro de 1817, o chefe oriental D. José Verdum, preso com outros oficiais e todo o armamento, foi efetivado no posto de capitão de Millcias "pelo distinto comportamento com que se houve na ação". Atuou no combate de Guabiju, em abril de 1818, onde Aranda sofreu pesada derrota que veio reforçar o arsenal e a remonta do Império. Em 26 de maio ele dirigiu, na outra margem do Uruguai, bem-sucedida surpresa contra Artigas. Trouxe farta presa de guerra (cavalos, armas, munições etc.). Em conseqüência foi elogiado e promovido a major. Repetiu este feito em Queguai-Chico. Em 28 de fevereiro de 1815 infligiu pesada derrota a Frutuoso Rivera, no Arroio Grande, com grandes presas de guerra. Isto lhe valeu a promoção, em 17 de março de 1820, a tenente coronel "por distinção no combate de Arroio Grande". Aí teve a instruir-lhe o marechal Curado, filho de Goyás, que estudamos. A independência do Brasil vai encontrá-lo na defesa da Fronteira do Brasil, onde foi promovido a coronel graduado do 22o Regimento de Milícias de Rio Pardo, a sua escola para a guerra que aprendeu na Academia Militar das Coxilhas "vendo, tratando e pelejando". Esta guerra, segundo Rio Branco, foi o período áureo de Bento Manuel, tendo se destacado nas ações de Belém, Calera de Berquió, Perucho-Berin e Arroio de La China.

Guerra Cisplatina 1825-1828

Colocou-se na frente de seu Regimento e internou-se na campanha da Provlncia Cisplatina do Brasil (o atual Uruguai). Em 3 de setembro de 1825 bateu Frutuoso Rivera no arroio d'Aquila, sendo recebido em triunfo, em Montevidéu. No dia 12 de outubro de 1825, por circunstâncias adversas várias, provou o sabor da derrota, em Sarandi, conforme foi contado pelo alferes Manoel Luiz Osório que dela participou. Durante a retirada, segundo a tradição, conta-se que o coronel Bento Manuel, admirado da atuação do alferes Osório, semelhante a sua quando na mesma idade, teria dito: "É para aquele que vou deixar um dia a minha lança na certeza que ele a levará mais longe do que eu." Em 5 de novembro de 1826, derrotou na Capela do Rosário (Corrientes), depois de atravessar o rio Uruguai, o inimigo lá concentrado. Apreendeu farta presa de guerra. Comandava desde 9 de março de 1826 uma brigada, como coronel efetivo. Durante as marchas estratégicas dos exércitos argentino de Alvear e o imperial de Barbacena, Bento Manuel Ribeiro afastou-se em demasia de Barbacena. Assim, acreditou num movimento inimigo feito para iludi-lo. Em função dessa falsa possibilidade inimiga, que teria transmitido, a Barbacena, terminou por ausente da batalha de Passo do Rosário, em 20 de fevereiro de 1827, onde deveria estar ocupando a Ala Esquerda do Exército, o ponto crítico da defesa brasileira. Em seu local foi colocada a vanguarda do Barão do Serro Largo - marechal José de Abreu, constituída de um punhado de desertores, paisanos mal montados e sem efetivo - preparo para receber os ataques de Cavalaria inimiga. Disto resultou o marechal Abreu vir morrer e seus homens vitimas dos tiros amigos e das lanças e espadas inimigas em choque. Esta ausência de Bento Manuel da batalha teve imensa repercussão tática negativa, para a sorte das armas brasileiras. Por isto tem sido muito discutida a sua atuação entre os estudiosos do assunto.

Bento Manuel, o fiel da balança na Revolução Farroupilha

A situação de Bento Manuel imediatamente anterior à Revolução era a seguinte: Desde 27 de agosto de 1825 ingressara na la Linha do Exército Imperial, como coronel de Estado-Maior. Era já um homem opulento e bastante relacionado e respeitado por seu valor militar. Seu perfil era o de um caudilho. Possuía temperamento incomum merecedor de um ensaio psicológico, por mestres do assunto, para ajudar a explicar-lhe e, Souza Bocca o ensaiou sob este aspecto. Com a Abdicação de D. Pedro I, em 7 de abril de 1831 e até dezembro de 1834, comandou a guarnição e a Fronteira do Rio Pardo. Foi substituído na função por um desafeto, por ato do Presidente Fernandes Braga, da Província, talvez por indicação do comandante-das-Armas da mesma, o marechal Sebastião Barreto Pereira Pinto. Esta circunstância teria influído na decisão de Bento Manuel em ajudar a derrubar o governo, advindo à Revolução Farroupilha. Sobre ele escreveu o veterano Caldeira: "Bento Manuel era um militar de muita tática na guerra. E possuía muito conhecimento dos habitantes da campanha da nossa Província e também era de muito prestígio. O procedimento dele durante a Revolução é público e notório. Quando a legalidade estava caída ele com sua presença dava-lhe vida e quando a causa da República precisava alento, ele lhe dava." Como se verá, seu apoio, ora à Revolução Farroupilha, ora ao Império, sempre desequilibrou o fiel da balança para o lado que ele lutava. Assim, tomou parte ativa e proeminente na revolução de 20 de setembro a dezembro de 1835, que derrubou o Presidente Fernandes Braga e o Marechal Sebastião Barreto, Comandante-das-Armas, em cujas funções foi colocado pela revolução que passou a dominar, por completo toda Província do Rio Grande. Ao passar para o lado legal a convite do novo Presidente enviado pela Regência e seu parente e amigo, o Dr. José de Araújo Ribeiro, mais tarde Visconde do Rio Grande, desequilibrou as Forças em luta, em favor do Império. Durante sua primeira luta pela causa imperial de dezembro de 1836 a 23 de março de 1837, ou por cerca de 13 meses, sua participação foi decisiva no campo estratégico: - Para a reconquista Imperial da cidade do Rio Grande, por hábil manobra do novo presidente que lá assumiu suas funções. Cidade que serviu de base de partida de reforços navais e terrestres, enviados pela Regência, para combater a revolução, além de negar aos revolucionários um porto marítimo para desenvolverem suas marinhas de guerra e mercante, ou seu poder marítimo. - Pra distrair atenções para si, engajando forças a comando de Bento Gonçalves, essenciais à tentativa de conquista do Rio Grande. Disto resultou: 1. A queda definitiva de Porto Alegre em mãos imperiais e prisão de 36 revolucionários importantes e a liberação da ligação lacustre imperial, Porto Alegre - Rio Grande. 2. A prisão de Bento Gonçalves, na ilha do Fanfa, em 4 de outubro de 1836, com o concurso naval. 3. A desistência do ataque a Rio Grande, a partir de Pelotas, pelo major João Manuel de Lima e, Silva que o substituiu, no Comando-das-Armas. 4. A proclamação da República Rio-Grandense, em li de setembro de 1836, no Campo do Menezes. 5. O abandono de Pelotas pelos revolucionários, em direção da Serra dos Tapes, para Piratini, então escolhida capital da nova República. 6. A retirada dos farrapos de Piratlni, em direção à fronteira, sob o comando do então general farrapo João Manoel, seguida de internação, ao comando de Antônio Netto, no atual Uruguai, tudo sob sua ameaça, em Caçapava. Esta atuação valeu-lhe promoção a brigadeiro do Império. E com a revolução nos estertores vai lutar por ela mais uma vez. E isto ocorreu de 23 de março de 1837 a 18 de julho de 1839, pelo espaço de cerca de 2 anos e 3 meses, período áureo da República com capitais em Piratini e Caçapava, no qual ela implantou sua estrutura. Foi, além conquistada Laguna, em julho de 1839 e proclamada a República Juliana. Quando cobria a Fronteira do Uruguai, contra Netto e suas forças lá emigradas, conheceu a substituição do Presidente Araújo Ribeiro, seu amigo, com o que não concordou. Entrou em rota de colisão com o novo Presidente, brigadeiro Antero José Ferreira Brito que o destituiu do Comando-das-Armas e foi mais além - tentou prendê-lo!

Pela segunda vez no lado revolucionário

Bento Manuel então surpreendeu e prendeu o Presidente no passo de Itapevi em Alegrete, 23 de março de 1837. O manteve preso por cerca de 9 meses, até soltá-lo, por troca, em Viamão, em 1838, pelo coronel Francisco Xavier do Amaral Sarmento Menna. Em 21 de abril de 1837 foi instaurado processo contra Bento Manuel e seu filho Sebastião "por crime de sedição e rebelião e também cúmplice de roubo". Os farrapos em maus lençóis o receberam com imenso júbilo. Foi nomeado comandante das divisões da Direita e do Centro do Exército da República Rio-Grandense. Exército cujo comandante-em-Chefe interino, na ausência de Bento Gonçalves, era o general Netto. Em 7 de abril de 1837 reconquistou Caçapava. Em 8 de junho de 1837 bateu-se com Sebastião Barreto no arroio Santa Bárbara, em Cruz Alta, sendo ferido na ação. Em 30 de outubro de 1837, na coxilha do Espinilho, bateu seu aliado de ontem - o Cel Manoel dos Santos Loureiro. Enquanto isto, Netto mantinha sob cerco terrestre Porto Alegre. Em 16 de dezembro de 1837, Bento Gonçalves retornou da prisão aonde fora colocado depois de preso por Bento Manuel. Decorridos 15 dias, em 29 de dezembro de lã37, ele promoveu Bento Manuel a general da República. Este continuou no comando das divisões da Direita e Centro e diretamente subordinado, a Bento Gonçalves, como Presidente e Comandante-em-Chefe do Exército, mas cercado de todas as atenções. Em 31 de janeiro de 1838, no Caí, Bento Manuel tomou em ação, duas canhoneiras. Elas foram incorporadas à Marinha da República ao comando do então Giusepe Garibaldi e mais tarde o herói maior da reunificação da Itália, além de "o homem de ação de seu século". Em 30 de abril de 1838 comandou o Exército da República na vitória de Rio Pardo, a maior dos republicanos. Reconquistar Porto Alegre era o sonho dos dois Bentos que se encontraram em Encruzilhada. Mas faltavam cavalhadas e os imperiais se fortificavam e mantinham aberta a linha de suprimento geral lacustre Rio-Grande - Porto Alegre, a despeito da interferência de Garibaldi, neutralizada com a navegação imperial, em comboios. Os farrapos dominavam a campanha e recebiam apoio externo pelas fronteiras com o Uruguai e Argentina. Os imperiais dominavam o Rio Grande, São José do Norte, Porto Alegre e a navegação interior do Rio Grande. Em 25 de julho de 1839, David Canabarro proclamou, em Laguna, a efêmera República Juliana que serviria para um porto de mar de onde a República, recorrendo à guerra de corso, pudesse prejudicar a navegação imperial, em alto-mar.

Abandono definitivo dos farrapos

Em 18 de julho de 1839, quando a causa farrapa se desenvolvia ainda bem, Bento Manuel a abandonou através de carta circunstanciada dirigida ao Ministro da Guerra da República, José Mariano de Mattos. Basicamente alegou ter recebido ingratidões do Brasil, depois de sacrifícios superiores ao esforço humano na defesa de sua Integridade, como a desconsideraçâo do marechal Antero de Brito que o tentou prender. Que pressagiava ingratidões semelhantes dos farrapos que hoje o lisonjeavam. Protestou contra a promoção a tenente coronel e nomeação para comandante do 2? Batalhão de Caçadores, do baiano Francisco José da Rosa que havia repreendido asperamente, por insubordinação. Bento Manuel havia sido decisivo na prisão de Bento Gonçalves e seu envio para o forte do Mar, de onde foi libertado pelo oficial baiano citado, que acompanhou Bento Gonçalves ao Sul. E concluiu sua carta em que se exonerou dos serviços à República: "Hoje, já próximo da sepultura e cheio de casganhadas em árduos serviços à pátria prestados, não posso nem devo tolerar que, por um obscuro baiano, fira. V. Excia e Exmo governo minha honra e pundonor mílítar." Bento Gonçalves tentou de tudo para demovê-lo, mas sem resultado. Em realidade, Bento Manuel foi desautorado, e sem outra alternativa, que não deixar o serviço da República. Assim, de 18 de julho de 1839 a 9 de novembro de 1842, chegada de Caxias, ou por cerca de 3 anos e 4 meses, Bento Manuel permaneceu neutro. Com a chegada de Caxias, Bento Manuel, anistiado pelo Governo Imperial, passou a colaborar no combate aos republicanos. Em 26 de maio de 1843 lutou, em Ponche Verde, onde foi ferido duas vezes no peito tendo, em movimento dificílimo, uma inspiração tática que adotou e o salvou da derrota certa. Em 29 de julho de 1844, evitou combate no Bai-Passo, com os revolucionários mais fortes que ele.

Bento Manuel segundo Caxias

Bento Manuel recebeu de Caxias o comando de uma Divisão. Desempenhou então decisiva ação militar na perseguição dos republicanos, até a conclusão da Paz de Ponche Verde, em 1o de março de 1845. Caxias, temendo uma nova defecçâo de Bento Manuel, julgava impolítico dar-lhe comando, mas acreditava que Bento Manuel lhe seria útil, como de fato o foi, "suprindo-me naquilo que me faltava, que é o conhecimento prático do Rio Grande e com suas relações na campanha, de que espera obter mais alguma gente de Cavalaria e Cavalos". Ao Caxias dirigir proclamação aos farrapos, em 9 de novembro de 1842, o jornal Americano assim a comentou em certo trecho: "Caxias não traz a faculdade de atemorizar com pragas, mas traz Bento Manuel e seu filho, que valem por todas as pragas do Egito. Se o nome de V. Excia, Caxias, pela fama de sua habilidade estratégica, era capaz de inspirar-nos temor, que receio não incutirá agora..." Caxias em ofício de 31 de março de 184313 escreveu: "Até hoje nenhum dos chefes a quem Bento Manuel escreveu, e com os quais contava se apresentou. Pelo contrário, continuam a servir a favor da revolta como dantes, sendo suas respostas dadas boçalmente ao portador das cartas do referido brigadeiro e que não mereciam resposta nenhuma, suas proposições dando a entender que nada com ele haviam tratado a semelhante respeito." A esta altura uma onda de ódio já se levantava entre republicanos e imperiais contra o procedimento de Bento Manuel. Caxias, em ofício de 4 de maio de 1844 ao Ministro da Guerra-esclarecia: "Logo que fiz junção com a la Divisão, um requerimento me foi dirigido em nome dos soldados pedindo serem desligados do comando do brigadeiro Bento Manuel... Não dissimularei a V. Excia que esta mostra de desobediência e má vontade de alguns chefes dessa Província... provém, como é notório, da indisposição e ódio que votam a pessoa do brigadeiro Bento Manuel, com quem não desejam servir, ódios que com bastante esforços e persistência tenho conseguido dissipar, se não em todos os filhos dessa Provlncia, ao menos na maior parte do Exército." Todas estas atitudes de Bento Manuel que ele encontrava argumentação para explicá-las, jamais foram entendidas pelo povo rio-grandense que o condenou e o ridicularizou nestes versos entre outros:
"Pode um altivo humilhar-se,
pode um teimoso ceder,
pode um pobre enriquecer,
pode um pagão banzar-se,
pode um avaro emprestar,
um lassivo confessar-se,
tudo pode ter perdão!
Só o Bento Manuel não!"
Recolhendo-se a sua estância no Jarau, foi prometido a "Dente Seco" uma quantia para matá-lo. Percebendo ele o intento e incapaz de reagir fisicamente, seduziu ou passou a conversa em "Dente Seco" dando-lhe quantia dobrada a ajustada, salvando assim a vida," conforme contou Olhynto M. Sanmartim.

Atuaçâo na Guerra contra Oribe e Rosas 1851-52

Nesta guerra seus serviços foram reclamados para a defesa da Integridade e Soberania do Brasil. Coube-lhe o comando, como marechal, da la Divisão do Exército que era integrada pelas seguintes brigadas:

la - ao comando do brigadeiro Francisco Arruda Câmara e integrada pelos 5o, 6o e llo Batalhões de Infantaria.
2a - ao comando do brigadeiro Manoel Marques de Souza, integrada pelos 2o RC de Linha e o 3o RC da Guarda Nacional, de Bagé.
5a - ao comando do coronel João Províncio Mena Barreto com o 4o RC de Linha e Cavalaria da Guarda Nacional de São Borja.
6a - ao comando do coronel da Guarda Nacional Jerônimo Jacinto Pereira, de Itaqui, e além, emigrados orientais.

Morte de Bento Manuel

Morreu com 72 anos de idade, rico mas controvertido, e indiscutivelmente como o julgou Caldeira ao traçar-lhe o perfil, "quando a legalidade estava caída sua presença dava-lhe vida e quando a causa da República precisava alento ele lhe dava". Foi indiscutivelmente a maior espada do Rio Grande do seu tempo e o maior especialista na Guerra dos Coxilhas ou na Arte Militar dos Pampas. A explicação e a justificação de seus comportamentos é obra para sociólogos e psicólogos.

Bento Manuel na visão de Osvaldo Aranha

A controvertida e polêmica figura do general Bento Manuel encontrou no grande brasileiro e um dos maiores rio-grandenses de todos os tempos - o Dr. Osvaldo Aranha, o seu maior defensor e intérprete em artigo "A Revolução de 35 e a União Nacional" ao escrever: "Garibaldi colocava a Pátria acima dos partidos e das formas de Governo. Republicano convicto, depois de um certo período isto não o impedia de aceitar a Itália monárquica, sob o cetro de um soberano que lhe garantisse a Unidade. Essa a meu ver é a melhor forma de patriotismo. Na Revolução Farroupilha temos um homem com a mesma 'formação moral: Bento Manuel Ribeiro. O grande farroupllha foi até certo ponto a figura mais caluniada de nossa história. Não lhe compreendiam as aparentes varações e transigências. Não lhe perdoavam o monarquismo, destoante do espírito da Revolução. Investigações mais profundas permitiram reconstituir a verdadeira figura moral do soldado. Esteve com a Revolução enquanto foi necessário desafrontar e libertar o Rio Grande do Sul. Quando a metrópole caiu em si e decidiu fazer-lhe justiça, quando os farrapos receberam o ramo de Oliveira trazido pelas mãos augustas de Caxlas, a sua missão estava finda. Não iria fazer o jogo do estrangeiro... Bento Manuel, embora nascido acidentalmente fora dos pagos, é um dos maiores tipos do Rio Grande. Guerrilheiro e soldado a sua fé de ofício não inveja a de ninguém. Lutou pelo Rio Grande sem nunca perder de vista a Integridade do Brasil." A condenação popular de Bento Manuel foi porque o povo entendeu, simplificando as coisas, que ele havia-se "bandeado" ou mudado de partido, gravíssimo pecado na visão de Mem de Sá em "Politizaçâo do Rio Grande" ao traçar o perfil do caudilho gaúcho: "0 caudilho gaúcho era um chefe militar na guerra e chefe civil na paz. Em torno dele agrupavam-se as tropas de guerra e, mais tarde, os eleitores na paz. Ele era respeitado e obedecido e amado, porque tinha tanto de protetor quanto de comandante. Os homens lhe eram fiéis até a morte e por ele e pela causa que ele encarnava, matavam ou se deixavam matar. Esta fidelidade era total e absoluta, para a vida inteira, para o que desse e viesse. Dessa fidelidade ao chefe, ao comandante, decorreu a fidelidade posterior à causa política ou ao partido politíco que o caudilho abraçava. Bandear-se de chefe ou de partido, constituia uma ignomínia que inutilizaria o homem para o resto da vida." Foi este preço altíssimo que a memória de Bento Manuel tem pago. Ninguém é culpado pelo seu temperamento. Talvez no seu temperamento e amiudado contato com os caudilhos argentinos de Corrientes e Entre-Rios de que recebeu influências, venha explicá-lo melhor perante seus co-estaduanos. Estudar o perfil traçado do caudilho brasileiro do Rio Grande do Sul pelo mestre Arthur Ferreira Filho em "Revoluções e Caudilhos", ajudaria os rio-grandenses a compreendê-lo, bem como as dos citados Osvaldo Aranha e Mem de Sá, além de outras. E assim cumprir-se aquela definição de História de que ela é Verdade e justiça.



Bento Gonçalves da Silva



Na segunda metade do século XVIII (l752) recebiam um lote de terras mais ou menos na metade do caminho entre o arroio da Ponte e o rio Taquari, no local que ficou batizado por Piedade, "em o distrito da Freguesia do Triunfo" o poveiro Manoel Gonçalves Meirelles e sua mulher dona Antônia da Costa Barbosa, filha do povoador Jerônimo de Ornellas Menezes e Vasconcellos, nascida, ainda, em Guaratinguetá, São Paulo, enquanto êle era português, natural de Mondin de Bastos.
Havia já, na época, um pequeno povoado mais abaixo, no lugar reservado para "rocio" na margem do rio Taquari e sua foz com o Jacuí. Para êle se mudara Jerônimo de Ornellas ao ter desapropriadas as terras de sua "estança" do Pôrto de Viamão, também conhecido por Pôrto do Dornelles, contribuindo com muito de suas posses para a construção da Igreja do Senhor Bom Jesus.
O casal Manoel Gonçalves Meirelles-Antônia da Costa Barbosa teve diversos filhos e entre êstes dona Perpétua da Costa Meirelles, nascida no Triunfo, e que casaria com o Alferes Joaquim Gonçalves da Silva, português de Santa Marinha de Real, bispado de Lamego.
Foi dêsse casal que nasceu dona Perpétua da Costa Meirelles, que foi a mãe de Bento Gonçalves da Silva, conforme a certidão a seguir:
- "Aos dezenove dias do mês de outubro de mil setecentos e oitenta e oito, nesta Matriz do Senhor Bom Jesus do Triunfo, batizei e pus os Santos Óleos a - BENTO - filho legítimo do Alferes Joaquim Gonçalves da Silva, natural da freguesia de Santa Marinha de Real, bispado de Lamego, e de sua mulher Perpétua da Costa Meirelles, natural desta freguesia do Triunfo; neto, pela parte paterna, de Manoel Goncalves da Silva e de sua mulher Josefa Maria de Jjesus, ambos naturais da freguesia de Santa Marinha de Real, do mesmo bispado acima dito; e pela materna, de Manoel Gonçalves Meirelles, natural de Mondin de Bastos, arcebispado de Braga, e de sua mulher Antônia da Costa Barbosa, natural da vila de Guaratinguetá bispado de São Paulo; foram padrinhos o Tenente Manoel Carvalho de Souza, e Ana da Costa Meirelles, solteira. De que para constar, fiz êste assento que assinei. O Vigário Eusébio de Magalhães Rangel e Sã".
Bento Gonçalves da Silva, entretanto, nascera dias antes, o que o registro de batismo não menciona: 23 de setembro de 1788.
Segundo algumas tradições, seu destino era ser sacerdote. Contudo, foi ser militar, tendo sido sacerdote seu irmão Roberto que tomou parte ativa na Revolução Farroupilha.
Aos treze anos de idade já era Bento autêntico espadachim. Dizem que, agredido por um negro, ferrabrás temido na região, Bento Gonçalves com êle se bateu, matando-o num verdadeiro duelo a espada.
Iniciou sua carreira militar em 1811, na denominada Campanha de D. Diogo. Embora sem grande destaque, o furriel Bento Gonçalves, que sofreu diversas acusações, a pouco e pouco foi avante.
Terminada a campanha de 1811/1812, seguiu para Jaguarão, e no Departamento de Cêrro Largo, Estado Oriental, casou em 1814 com dona Caetana Garcia, filha de Narciso Garcia, natural de Espanha e de dona Maria Gonzales, natural de Povo Novo, adjaeências da cidade do Rio Grande.
Soldado por vocação, o Furriel de Dom Diogo, apesar dos boatos que espalharam de que desertara após o casamento, sempre estêve ativo e vigilante e tantos serviços prestou na fronteira de Jaguarão para onde se mudara, que em 1817 o Capitão General Marquês de Alegrete nomeou-o "Capitão de Guerrilhas", isto é: capitão de milícias.
Tomou parte efetiva e sempre eficiente nas campanhas platinas, destroçando o inimigo em Curales e Las Canas (l8l8), Cordovez e Carumbé (l8l9), Arroio Olimar (l820). Em 1824 era promovido a tenente coronel e nomeado Comandante do 39 Regimento de Milícias, que organizou. Com êste Regimento, a 12 de outubro de 1825, tomava parte no combate de Sarandi. Nesse mesmo dia fôra promovido a coronel.
Salientou-se sobremodo no combate do Passo do Rosário, a 20 de fevereiro de 1827. A "Musa Popular" consagrou-o nessa luta, dizendo: -'O herói Bento Gonçalves foi a nossa salvação"...
Em 1829 era promovido a coronel do Estado Maior e nomeado comandante do 4.1 Regimento de Cavalaria de l.a Linha, aquartelado em Jaguarão. A seguir foi comandante da Fronteira de Jaguarão, e da Guarda Nacional.
Liberal, prestigioso e prestigiado, - como todo homem de valor - era invejado e odiado pelos profissionais da calúnia. Entretanto, jamais procurou outra defesa que seus direitos e a verdade de sua vida pública, leal e sem segredos. Acusado de andar em conluios contra a unidade nacional, defendeu-o, sem que êle o pedisse, o velho amigo e companheiro Major João Manoel de Lima e Silva, irmão do Regente Francisco de Limae Silva, e tio do futuro Duque de Caxias.
Mas a mágoa imensa dos acontecimentos que o envolveram injustamente e, sobretudo, a pressão política que a administração exercia sôbre o Rio Grande do Sul e seus habitantes liberais, levaram-no ao extremo.
Eleito deputado à primeira legislatura da Assembléia Provincial criada pelo Ato Adicional de agôsto de 1834, aí desfeiteado pelo próprio presidente da Província que o acusou de querer separar o Rio Grande do Brasil e formar, mancomunado com Rivera e Lavalleja, um nôvo Estado, Bento Gonçalves, que já sabia da disposição dos próceres de seu Partido Liberal de se libertarem e libertarem o Rio Grande do Sul das garras da opressão que o dirigia, afastou-se e combinou a "arrancada" que a 20 de setembro de 1835 destruiria por completo as artimanhas políticas de Fernandes Braga e sua gente.
Nasceu, assim, a Revolução Reivindicadora de 20 de setembro que expulsou no Rio Grande do Sul o mandonismo e o autoritarismo que o infelicitavam.
O levante que se verificou ao mesmo tempo em todo o território gaúcho, liquidado o iníquo regime, resolveu solicitar ao Govêrno um novo presidente, capaz e digno. Parecia que a paz voltara. O govêrno nomeara um sul-rio-grandense e sábio que já se exercitara na diplomacia - Dr. José de Araújo Ribeiro. Entretanto, as coisas de tal forma se prepararam que o novo presidente nomeado não chegou a tomar posse como pretendia. Por isso, abespinhado, resolveu abandonar a Capital e, na cidade do Rio Grande, contrariando a lei, tomou posse clandestinamente perante a Câmara Municipal daquela cidade, sem dar maior importância à Assembléia Provincial. Entretanto, apesar disso, tanto a Assembléia, como Bento Gonçalves em pessoa, dirigiram-se ao Presidente Araújo Ribeiro, convidando-o a legalizar sua posse em Pôrto Alegre. Negou-se e, em resposta, mandou fôrças, que organizara, atacar Pôrto Alegre. Com êsse gesto, a luta se reiniciou, obrigando os liberais, (farroupilhas como os cognominavam), que haviam dispersado as tropas, a refazerem suas hostes e enfrentar a luta que o presidente nomeado lhes propunha. E a Revolução Farroupilha começou verdadeiramente.
Os liberais do Rio Grande do Sul, em grande parte, tinham tendências republicanas. Entretanto, não eram republicanos seus chefes ostensivos, mas apenas "liberais-extremados". A luta assim iniciada, e em virtude da necessidade absoluta de defesa, levou-os ao gesto extremo: proclamar a República.
Bento Gonçalves, não consultado - e que seria aprisionado logo após no famoso combate da ilha do Fanfa, a 4 de outubro, concordou, porém, plenamente, com a proclamação feita pelo General Antônio de Souza Neto nos Campos de Seival a 11 de setembro daquele ano de 1836: a República Federativa.
Proclamada a República, empossado o govêrno que escolhera para Capital a vila de Piratini, foi Bento Gonçalves eleito presidente da República Rio-Grandense. Mas, prêso, enviado logo depois para o Rio de Janeiro, nada podia fazer. Por isso, para substituí-lo fôra eleito José Gomes de Vasconcellos Jardim.
Do Rio de Janeiro foi Bento Gonçalves enviado para o presídio da ilha de Fernando de Noronha. Felizmente, um desarranjo no barco que o conduzia obrigou o comandante a ficar por alguns dias na cidade do Salvador, Bahia.
E, enquanto o navio estava no estaleiro, Bento Gonçalves fôra trancafiado no forte de São Marcelo e Nossa Senhora do Pópulo, em plena baía de Todos os Santos. Com incrível rapidez espalhou-se a notícia e a Maçonaria e amigos de Bento Gonçalves resolveram agir e acertar a fuga. E Bento Gonçalves fugiu, regressando, afinal, ao Rio Grande do Sul, assumindo, em 1837, o cargo para que fôra eleito.
Mas a campanha de desprestígio contra o grande chefe e condutor Bento Gonçalves, também se fêz sentir no seio dos próprios farroupilhas. Disso resultou seu pedido de demissão do cargo de presidente e de comandante em chefe das fôrças da República Rio-Grandense em luta contra o Império e, por fim, o famoso duelo com Onofre Pires da Silveira Canto, seu velho amigo e companheiro de lutas liberais.
Com a morte de Onofre, em conseqüência do ferimento sofrido no duelo, o general farroupilha apresentou-se à prisão ao seu substituto no comando em chefe das fôrças - o General David Canabarro, - também seu velho amigo. Êste, ao ouvir de Bento o relato do acontecido (que, aliás, já sabia), apenas disse: - O caso é grave. - E quando o general lhe quis entregar a espada, Canabarro recusou-se a recebê-la, declarando:
- Conserve-a, general. Para manter a espada de Bento Gonçalves somente conheço um homem: Bento Gonçalves da Silva.
Mas a revolução estava no fim. As densas nuvens que vinham do Prata com as provocações do ditador D. Juan Manoel de Rosas, obrigaram David Canabarro a sérias medidas. Dela., logo depois se aproveitou o nôvo comandante em chefe das fôrças imperiais e presidente da Província, General Conde de Caxias, e, graças à sua dinâmica e diplomática maneira de agir, farroupilhas e imperiais entraram em entendimento, fazendo-se a pacificação da Província com o Tratado de Poncho Verde, de 25 de fevereiro de 1845. A 28 .daquele mês e ano David Canabarro proclamava a pacificação, naqueles mesmos campos, enquanto Caxias, já marques, proclamava, pouco mais adiante, nas margens do rio Santa Maria, a volta do Rio Grande do Sul ao mundo brasileiro.
Bento Gonçalves, entretanto, estava doente. Não estêve presente aos solenes atos, onde seus inimigos figuravam continuando a caluniá-lo. Pobre, sem dinheiro algum, apenas com as terras que conservara em Camaquã, para lá voltou, contemplando a casa abandonada e os campos despovoados. Com empréstimos de amigos recomeçou a vida. Mas pouco duraria. Gravemente enfermo foi a Pedras Brancas (hoje município de Guaíba) em busca de seu velho amigo e companheiro José Gomes de Vasconcellos Jardim, que ali, além de médico-prático de grande fama e renome, possuía um hospital. Mas, nem sequer chegou a ser tratado devidamente, pois a pleurisia que se manifestara violenta, levou-o em seguida. Era o dia 18 de julho de 1847.
Seu corpo foi trasladado para Camaquã, em cujo cemitério ficou até o ano de 1909, quando o então Intendente do Rio Grande, Dr. Juvenal Miller, mandando erguer um monumento de granito e bronze, solicitou aos herdeiros autorização para transladar para o alicerce daquele monumento notável os restos mortais do glorioso gaúcho General Bento Gonçalves da Silva. E ali repousam, desde então, as cinzas do imortal farroupilha.

CORONEL JOSÉ DE ALMEIDA CORTE REAL

significado na história

Lutou pela Integridade e Soberania do Brasil na guerra Cisplatina 1825-28 como cadete do antigo e legendário Dragões do Rio Pardo e então 5o Regimento de Cavalaria Ligeira. E, com ele, lutou em Passo do Rosário ao comando do Cel Felipe Neri de Oliveira, em 20 de fevereiro de 1827. Na Revolução Farroupilha participou com ardor, valentia, dedicação e solidariedade ao lado de seus amigos Generais João Manuel Lima e Silva (seu cunhado), Bento Gonçalves e Antonio Netto. Por seu singular cavalheirismo impôs-se à estima e consideração gerais, causando grande consternação seu desaparecimento, em ação, próximo ao arroio Velhaco, em Camaquã, em 18 de junho de 1840.




Naturalidade, ascendência e perfil militar
Nasceu em Rio Pardo em 15 de novembro de 1805. Era filho do Capitão de Dragões Francisco de Borja de Almeidâ Corte Real morto em ação no combate de Catalan, em 4 de janeiro de 1817, na primeira guerra contra Artigas. Era irmão de Maria Joaquina esposa do general republicano João Manuel de Lima e Silva, por sua vez tio do atual Duque de Caxias. Por parte de pai tinha suas raízes em Portugal, em Lagos, Algarve. Por parte de mãe era neto do brigadeiro Antonio Pinto da Fontoura, rio-grandense de Rio Pardo (l760-1826) e da carioca Ana Joaquina das Dores. Era trineto de tenente dos Dragões João Carneiro da Fontoura, filho por sua vez de Antonio Carneiro da Fontoura, Morgado de Loires. Seu pai, ao morrer em ação, era comandado do coronel Sebastião Barreto, comandante do Regimento dos Dragões do Rio Pardo na primeira guerra contra Artigas 1816-17. Em Passo do Rosário, Corte Real teve como comandante de Divisão o mesmo oficial, então marechal e por cuja derrubada do Comando-das-Armas do Rio Grande ele foi lutar em 1835.




Traços de seu perfil militar
Sobre seu perfil escreveu Caldeira que com ele privou: "Corte Real serviu na Guerra 1825-28 como cadete. Por isso dispunha de alguns conhecimentos militares. Era o oficial de trato mais fino e delicado que havia no Exército Republicano. Foi ele considerado valente no ataque de Passo do Rosário, quando caiu prisioneiro. Foi confirmada a sua coragem e valentia no ataque de Taquari. Corte era amigo sincero de Netto e de Bento Gonçalves." Segundo Othelo Rosa, "Corte Real, moço e rico não vacilou em sacrificar pela República a mocidade e a riqueza. Era de porte elegante, aprimorado no vestuário, trazendo sempre seu cavalo de montaria ricamente ajaezado (bem aparado). Corte Real foi a seu tempo um galhardo cavalheiro, de renome social, gentil galanteador nos salões". Estas características sociais o aproximavam de Netto e Bento Gonçalves, grandes expressões gaúchas como cavalheiros e cavaleiros. Por ocasião da adesão do coronel Bento Manuel Ribeiro pela primeira vez ao Império, Corte Real, com 27 anos, foi feito coronel da Guarda Nacional. Saiu em campanha com o cunhado major João Manoel de Lima e Silva, ao encalço de Bento Manuel que foi batido em Capané. Deixado no comando de uma tropa para observar Bento Manuel, Corte Real, jovem impetuoso, decidiu atacar o experimentado Bento Manuel sem esperar Bento Gonçalves. Travou-se o combate de Passo do Rosário, de 17 de março de 1836. Corte Real foi batido e preso. Bento Manuel disse que ele fora batido por ser "imprudente e inexperiente, embora impetuoso".




Corte Real foi preso pelo Ten. Manoel Osório
No ataque ao coronel Corte Real comandou a vanguarda o tenente coronel Silva Borges e os seus dois filhos José Luiz Osório e Manoel Luiz Osório, ambos tenentes. O último nesta ação teve o seu cavalo baleado. Segundo contou Fernando Luiz Osório: "Corte Real, homem elegante e de porte, apresentou-se em combate montado em garboso cavalo, ricamente azaezado e ostentando nos arreios custosos favores de prata. Sendo rodeado por um grupo de legalistas ao mando do tenente Manoel Luiz Osório, dispunha-se a morrer peleando, quando o tenente Osório adiantou-se e bradou-lhe: - Renda-se, patrício, entregue-me a espada que eu lhe garanto a vida! Corte Real rendeu-se ao irmão de Osório, que o prendeu e desarmou. Foi neste momento que um soldado legalista aproximou-se sorrateiro do cavalo montado por Corte Real, com o fito de cortar um estribo de prata do valente chefe farrapo. Este ao pressentir a intenção do soldado o chutou no queixo arremessando-o no chão." Corte Real foi enviado preso para a cidade de Rio Grande pelo capital Mazzaredo que comandava, ao iniciar a Revoluçâo o 2o RC de Bagé, quando foi conduzido até a fronteira, são e salvo, pelo tenente Osório que aderira à Revoluçâo no seu início. Enviado ao Rio de janeiro, lá esteve preso na Fortaleza de Santa Cruz até conseguir evadir-se, em l1 de março de 1837, depois de quase um ano de prisão segundo contou Caldeira que lá estava. Foi Ministro do Interior da República em Piratini, tendo como 1o escriturário nosso bisavô José lgnácio Moreira Filho que veio a ser o primeiro serventuário de justiça no município de Canguçu, ao ser criado em 1857, quando Presidente da Província Jerônimo Coelho, que era Ministro da Guerra do Império, por ocasião da Paz de Ponche Verde. Ignácio era irmão de Serafim que exercia as funções de 1o Escriturário do Ministério da Guerra e, ao que consta, sobrinhos de Domingos Moreira, Presidente da Câmara de Vereadores de jaguarão, a primeira a aprovar a República Rio-Grandense, proclamada depois do combate do Seival - 11 de setembro de 1837. Corte Real participou de diversas ações como em Seival. Foi morto numa emboscada imperial no arroio Velhaco atingido por duas balas, no momento em que adentrava o corredor da casa da fazenda de Marcos Alves Pereira Salgado, no local conhecido por Barba Negra, no dia 11 de junho de 1840. Possuía 31 anos. Acreditando tratar-se da força de Antonio Netto, só identificou, tarde demais, tratar-se de uma força imperial destacada por Chico Pedro e ao comando direto de João Patrlcio de Azambuja. Sua morte causou consternação geral, até entre imperiais. Seguia ele seu cunhado João Manoel, 3 anos antes tocaiado e assassinado, inerme, com requintes de perversidade, em São Borja.

DAVID CANABARRO
"Glória se colhe ao silvo das metralhas por entre o horror de ríspidas batalhas, em meio da carnagem!"
escreveu Bernardo Guimarães, o grande poeta e romancista mineiro, em seu poemeto "A Campanha do Paraguai" (Heróides Brasileiras), § V - Uruguaiana e Canabarro. ("Novas Poesias" B. L. Garnier, livreiro-editor do Instituto Histórico, Rio de Janeiro, 1876; - "Poesias Completas, de Bernardo Guimarães" - Organização, introdução, cronologia e notas por Alphonsus de Guimarães Filho, - MEC - Instituto Nacional do Livro, (Emprêsa Gráfica "Revista dos Tribunais" S.A., São Paulo), Rio de Janeiro, 1959, págs. 250 a 289).
Na realidade, porém, a glória não é somente colhida "ao silvo das metralhas por entre o horror de ríspida batalha, em meio da carnagem", mas também no trabalho útil e fecundo, em plena paz, e atitudes nobilitantes e patrióticas, além de muitos motivos mais que podem dar ao homem grandeza tal que o eleve ao cume da glória sem jamais ter entrado em campo de batalha.
Mas no caso de David Canabarro - David José Martins - a glória o conquistou na guerra mas não somente "ao silvo das metralhas". Cooperaram, talvez mais do que os feitos de guerra para a glória de Canabarro, seu grande gesto ao responder aleivosa proposta de D. Juan Manoel de Rosas, e sua atitude quando Bento Gonçalves, após o duelo com Onofre Pires e a morte dêste se lhe apresentou prêso por ter contrariado as leis e morto um homem que fôra, além de tudo, grande amigo e companheiro de lutas.
Só êstes dois gestos bastariam para dar a David Canabarro um lugar especial na História do Rio Grande do Sul.
Tipo excepcional das campanhas do Rio Grande do Sul, de pouca cultura, mas, grande discernimento, David Canabarro se fêz por si. Subiu aos poucos, com vagar, mas segurança, começa sua vida ascencional aos 15 anos de idade.
Descendente de açorianos, David Canabarro é neto de José Martins Faleiros e dona Jaeinta Rosa, naturais da Ilha Terceira. Instalados em Pôrto Alegre, aí lhes nascia o filho homem que seria José Martins Coelho. Dona Mariana Inácia de Jesus, natural da Ilha de Santa Catarina, que, com seus pais Manoel Teodósio Ferreira e dona Perpétua de Jesus, se instalaria em Bom Jesus do Triunfo pelo ano de 1778, aí conheceu o futuro marido, José Martins Coelho que com a família também para ali se havia transferido.
Casados, mudaram-se logo para Taquari onde lhes nasceu, a 22 de agôsto de 1796, o menino David José, no lugar denominado Pinheiros, uma légua além da freguesia-sede, em terrenos que adquirira José Martins Coelho, fundando uma estância d ' e criar.
Foi ai, nessa estância, que transcorreu a vida inicial do futuro David Canabarro até aos 15 anos. Em velho manuscrito conservado na Biblioteca do Instituto Histórico Brasileiro, no Rio de Janeiro, segundo nos informa H. Canabarro Reichardt ("David Canabarro - Estudo biográfico ", Edição do Centenário Farroupilha, Papelaria Velho, Rio de Janeiro, 1934), encontramos a razão pela qual o jovem David José Martins passou a assinar-se, depois de 1836, "David Canabarro". Diz o documento:
Quando regressava da campanha, em 1814 (deve haver equívoco no ano, pois o Marquês de Alegrete somente foi empossado na governança da Província a 13 de novembro de 1814, regressando da campanha em princípios de 1818, ou fins de 1817), o Marquês de Alegrete, encontrava-se em Rio Pardo o avô materno de David, Manoel Teodósio Ferreira. Este, ao vê-lo passar na sua carruagem, foi cumprimentar, na portinhola, o Governador que já o conhecia, ao que parece.
- Oh! senhor Canabarro, V. Excia. por aqui? Folgo muito de o ver, - retorquiu o Marquês.
Em seguida falaram em segrêdo, por muito tempo.
Manoel Teodósio Ferreira, dai por diante passou a ser cognominado, na família e fora dela, por Canabarro, nome que, afinal, adotou e transmitiu aos filhos, dos quais Antônio Ferreira Canabarro, que se tornou estancieiro na fronteira, faria David também firmar-se Canabarro.
Davi José Martins iniciou sua vida de militar na campanha de 1811/1812 - Campanha da Cisplatina. Para essa campanha deveria seguir o irmão mais velho, Silvério, já então com 18 anos. Entretanto, auxiliar precioso do pai nas lides campeiras, iria fazer muita falta. E David, contando 15 anos de idade, reconhecendo o fato, solicitou ao pai licença para seguir em lugar do irmão.
Patriota como todo proprietário rural do Rio Grande do Sul daqueles tempos (e até hoje), José Martins Coelho não vacilou, e David se apresentou às fôrças do nobre Dom Diogo de Sousa. Terminada a campanha, regressa ao lar, mas em seguida volta para combater Artigas (l8l6/20). Anos mais tarde vemo-lo tenente das fôrças de Bento Gonçalves da Silva na campanha de 1825/1828, que culminou com o tratado de paz de agôsto de 1828 e a independência do Uruguai.
Salientando-se em todos os recontros, teve papel preponderante no combate de Rincón de las Gallinas, salvando o exército brasileiro de completo desbarato (24-9-1825), o que lhe valeu os galões de tenente efetivo do Exército Nacional.
Na 21 Brigada de Cavalaria Ligeira comandada por Bento Gonçalves da Silva, assistiu à indecisa batalha de Passo do Rosário, obrando prodígios de valor e de. audácia, diz um cronista.
Cessada a guerra, volta ao lar, à vida do campo, mas desta vez associado ao tio Antônio Ferreira Canabarro, na estância fronteiriça de Santana do Livramento. Tornou-se aí, por insistência do tio, David Canabarro.
A Revolução Farroupilha, iniciada a 20 de setembro de 1835, pôs novamente a Província de São Pedro em agitação. Deveria ter sido provisória, até a expulsão do Presidente Rodrigues Braga e posse do nôvo. O nôvo, porém, reiniciou, por atos impolíticos, a revolução.
Foi então que David Canabarro, que oficialmente continuava David José Martins, entrou para a luta ao lado de seu velho amigo e companheiro, ex-comandante, Bento Gonçalves. E ainda ai, pelo menos até fins de 1836, continuou a firmar seu nome oficial (ainda na convenção da capitulação de Silva Tavares, 17 de dezembro de 1836,1 assinava David José Martins). Mas a partir de 1837, por todos conhecido por David Canabarro, passou a oficializar êste nome com o qual passou à História.
A Revolução Farroupilha, que o recebeu, de início como tenente, logo depois o promovia a general pela sua estratégia e qualidades excepcionais de comando. E chegou a Comandante em Chefe das Fôrças da República Rio-Grandense, pôsto em que assinou o Tratado de Paz de Poncho Verde, a 25 de fevereiro de 1845 e lançou a sua proclamação dando a província por pacificada (28-2-1845). Voltando à luta, nas campanhas contra Rosas e Aguirre, recebeu o título de General Honorário do Exército Brasileiro, com o qual batalhou contra os paraguaios invasores, em 1864 e, enfim, faleceu miseravelmente caluniado, na estância de São Gregório, a 12 de abril de 1867.
Jamais vencido na Revolução Farroupilha, mas apenas com um pequeno desastre por mal entendido, já no final, quando se tratava da pacificação, em "Porongos", David Canabarro era o assombro dos contrários. Por isso, o ódio que lhe votavam e a intriga e a calúnia que deveria levá-lo às barras de um tribunal militar, não fosse o grande espírito cívico e o culto à verdade do General Osório, que fez com que o processo fosse arquivado sem ter sido concluído, em 1866. Mas o velho e heróico Canabarro não resistiu ao violento golpe e depois falecia.
A causa da única "derrota" de Canabarro durante a Revolução Farroupilha, foi um descuido por mal entendido. Estava sua força acampada no Cêrro de Porongos, tranquilamente, de vez que se estava tratando da pacificação. Mas seu grande inimigo, articulador de todas as calúnias contra Canabarro, o depois Barão do jacuí, Francisco Pedro de Abreu, o Chico Pedro ou Moringue das cronicas guerreiras do Rio Grande do Sul, resolveu apanhá-lo de surpresa. Havia jurado e tudo fez para atingir sua finalidade, inclusive escrevendo uma carta como se fosse de Caxias, para, caso vencesse, desmoralizar Canabarro. E realmente o pegou distraído. Canabarro, que era solteiro, estava em sua barraca, naquele acampamento, acompanhado de "Papagaia", apelido de sua amante que era esposa do "cirurgião" da força. E, dizem, foi por causa desta mulher que se distraíra e fora pego de surpresa pelo Moringue, aliás guerreiro terrível, mas sempre derrotado por David Canabarro.
Pouco antes havia chegado aos ouvidos de Caxias, comandante das forças imperiais contra os farroupilhas e Presidente da Província, a resposta de Canabarro ao emissário de Rosas - "Senhor - o primeiro de vossos soldados que transpuser a fronteira, fornecerá o sangue com que assinaremos a paz com os imperiais. Acima de nosso amor à República está nosso brio de brasileiros. Quisemos, ontem, a separação de nossa pátria, hoje almejamos a sua integridade. Vossos homens, se ousarem invadir nosso país, encontrarão, ombro a ombro os republicanos de Piratini e os monarquistas do senhor D. Pedro II".
E mandara convidá-lo para uma entrevista. Canabarro foi. Recebido cavalheirescamente pelo nobre Conde de Caxias, este, em meio da conversa, antes de entrar no assunto que desejava tratar, teria dito a Canabarro "que a revolução tendia a desaparecer pela falta de elementos para prosseguir".
E Canabarro, de imediato, lhe respondeu: - "Engana-se, general. Ainda temos elementos próprios para sustentá-la por muito tempo. Se quiséssemos vencer a todo transe, poderíamos fazê-lo. Leia esta carta e se convencerá. Mas, note, que não aceitamos o concurso estrangeiro, porque primeiro de tudo, somos brasileiros e em caso algum admitimos o auxílio da castelhanada".
Caxias o compreendeu logo, como, aliás, já Canabarro compreendera a Caxias. E tornaram-se amigos.
Canabarro, entretanto, antes de assumir o compromisso com Caxias, de tratar da pacificação da Província, escrevera a Te6filo Benedito Ottoni, o chefe revolucionário mineiro de 1842, a quem Canabarro havia mandado oferecer auxilio, infelizmente (ou felizmente) chegado tarde. Ottoni respondeu-lhe aconselhando-o a tratar da pacificação. E a paz foi feita, honrosamente, sem vencidos nem vencedores.
O outro episódio dignificante - a par muitos mais, - foi o que se verificou por ocasião de se apresentar prêso Bento Gonçalves, em março de 1844.
Atacado, difamado, caluniado, Bento Gonçalves, que já tudo havia abandonado, menos a República Rio-Grandense, passando a presidência a José Gomes de Vasconcelos Jardim e a chefia suprema das fôrças ao General David Canabarro, teve que bater-se em duelo com seu companheiro das primeiras horas, Coronel Onofre Pires da Sílveira Canto. Foi, para êle, um ato doloroso, mas não o podia evitar. Onofre, grande guerreiro, mas inculto, deixou-se seduzir por inimigos de Bento Gonçalves e começou a criticá-lo violentamente, chegando às mais infames calúnias. Bento Gonçalves revidou e tiveram que bater-se. Onofre, ferido, morreu dias depois em conseqüência de gangrena. Acusado de assassino e violador das leis, apresentou-se a David Canabarro, chefe supremo das fôrça,-- da República Rio-Grandense, e lhe contou o sucedido, entregando-se prisioneiro.
É realmente grave, muito grave, respondera Canabarro. Mas, quando o chefe farroupilha de 1835 ia tirar a espada da cinta para a entregar a Canabarro, êste lhe diz:
- General. Para sustentar a espada de Bento Gonçalves, só conheço um homem - Bento Gonçalves da Silva. - E o conservou em sua barraca, até o final da revolução, como seu primeiro auxiliar, chefe de seu Estado Maior, logo que a grita cessou.
Sua carta a Teófilo Ottoni é outro grito de patriotismo, que, após a pacificação, lhe sai do mais íntimo do peito, agradecendo ao chefe mineiro "êsse tão relevante serviço prestado em favor do bem geral e da liberdade". (Veja-se: "A 'Circular' de Teófilo Ottoni" reeditada por Basilio de Magalhães na "Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro", tomo 78, vol. 132, Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1915 - pág. 342).
Entretanto, apesar de provadas. as calúnias contra David Canabarro, o historiador Alfredo Varela em suas obras sôbre a Revolução Farroupilha, de nada tomou conhecimento, continuando a afirmar as calúnias levantadas contra êle pelo Barão de Jacuí que, aliás, em suas "Memórias" ("Revista do Inst. Hist. e Geogr. do RGS", Ano de 1921, ns. l e 2), não repete e nem referências faz a David Canabarro, tratando-o, pois, como se não existisse, como se jamais tivesse se defrontado com êle.
Entretanto, na realidade, Canabarro sempre estêve presente: na Revolução Farroupilha, combatendo-o e derrotando-o inúmeras vêzes; nas guerras contra Rosas, na campanha contra Aguirre (l864) e na Guerra do Paraguai, durante o cêrco aos paraguaios invasores do Rio Grande do Sul (São Borja e Uruguaiana), salvando a então Província de ser talada de oeste a leste pelas fôrças de Solano Lopez comandadas pelo General Estigarríbia, enquanto êle, Barão do Jacuí, nada mais fêz que acercar-se do Ministro da Guerra e tramar intrigas, caluniar o grande soldado David Canabarro, querido e admirado por homens do valor e prestígio de Caxias, Osório, Pôrto Alegre, Teófilo Ottoni e muitos mais que põem, acima de tudo, a dignidade e a verdade histórica.


ONOFRE PIRES

Significação histórica
Combateu com o Regimento de Cavalaria de Milícias de Porto Alegre pela Integridade do Rio Grande do Sul, nas guerras contra Artigas, em 1816 e 1821 e pela do Brasil, na Guerra Cisplatina 1825-28.
Na Revolução Farroupilha foi dos mais ativos e atuantes coronéis. Coube-lhe comandar as forças que deram inicio à Revolução Farroupilha na noite de 19 de setembro de 1835, com o vitorioso encontro da Ponte da Azenha que criou condições para a conquista de Porto Alegre, em 20 de setembro de 1835, com a entrada nela do lider politico-militar da revolução, e seu primo, coronel Bento Gonçalves da Silvá.
Quis o destino que Onofre Pires viesse a morrer, em 3 de março de 1844, há um ano do término da Revolução, vítima de um ferimento no antebraço direito que recebeu de Bento Gonçalves, durante o duelo que travaram no Acampamento do Exército, nas margens do rio Sarandi, em 27 de fevereiro de 1844, em Topador, em Santana do Livramento. De temperamento singular e, em conseqüência dele, Onofre Pires envolveu-se em diversas questões rumorosas como se verá, que se refletiram negativamente na imagem, no curso e na unidade do movimento revolucionário farrapo e no seu próprio fim, trágico e solitário.




Naturalidade, ascendência e perfil militar
Onofre Pires nasceu em Porto Alegre, em 25 de setembro de 1799 e faleceu com 43 anos. Era neto do capitão-mor José Francisco Silveira Casado. Seu perfil foi traçado por Caldeira que com ele privou em diversas ocasiões: "Desde que apareceu na revolução, foi comandando forças... Era um homem muito corpulento. Era dado à leitura. Possuía poucos amigos. Tratava a todos de - meu caro! Era muito risonho quando conversava com quem a ele se dirigia. E não fazia boas ausências (fazia críticas às pessoas) depois que se retiravam de sua presença. Possuía idéias claras. Era muito inteligente. Como guerreiro nada deixava a desejar. Ele sabia incutir às massas o seu ânimo. Não cedia o seu posto a qualquer oficial. Na ocasião do perigo era ousado na frente do inimigo. No ataque a Rio Pardo, um soldado de Infantaria fez-lhe pontaria e Onofre foi sobre o infante e disse: Se atiras morres! O infante então baixou a arma e Onofre desfechou-lhe um golpe de espada. Ele comprometia a vida para salvá-la. Era rancoroso e vingativo!" Noutro depoimento escrito prestado por Caldeira a Alfredo Varela, assim escreveu sobre Onofre Pires com quem fugiu do Rio e privou várias vezes. Transcrevo o que não foi dito no primeiro depoimento: "Onofre era bem apessoado. Era um dos homens mais altos que havia em nossas fileiras. Ele tinha princípios militares. Era um dos oficiais de mais valor que havia na revolução. Como coronel, comandou a Divisão (do Centro) e sempre foi muito atento com as pessoas que lhe queriam falar. E conta-se o caso de uma senhora que chorava pela liberdade do marido que era um espião e que recebeu esta resposta de Onofre: - Prefiro ver correr as suas lágrimas do que correr o sangue dos meus patrícios. Se o seu marido justificar-se ele será solto. E arremata: Este bravo coronel tinha contra si o mau hábito de criticar as pessoas que com ele falavam pela primeira vez, depois que lhes davam as costas, fossem elas quem fossem. E tinha bons livros e dava-se à leitura." Caldeira refere a desabafo de Bento Gonçalves na fazenda do Cristal, em razão de Onofre Pires, comandante da Divisão Centro, encarregado do sitio de Porto Alegre, resistir a acatar suas ordens depois que chegou ao Rio Grande, após evadir-se de prisão na Bahia. Refere que Onofre Pires ao requisitar artigos de casas comerciais de Rio Pardo, por ordem de Bento Manuel, assinou alguns recibos. Assim, mais tarde, quando livrou-se pela segunda vez de prisão no Rio, teve que saldá-las com os seus recursos.




Principais ações
Onofre Pires, em 19/20 de setembro de 1835 liderou a conquista de Porto Alegre com tropa de Guardas Nacionais que mobilizou em Porto Alegre, Gravataí e Osório atuais. A seguir, comandando a Divisão do Norte, atuou sobre São José do Norte, concorrendo para que Presidente Braga, deposto, viajasse para o Rio de janeiro e para a libertação de Domingos José de Almeida, preso naquele local, fazia 17 dias. Mais tarde, quando houve a contrarevolução, Onofre iria ligar-se a um triste episódio em Mostardas, em 22 de abril de 1836 que irá macular a revolução. Segundo, ainda, Caldeira "Depois que Onofre derrotou a força de Juca Ourives, mandou fuzilar uns prisioneiros. Ele não soube impor sua posição de Chefe. Deu ouvidos aos inimigos daqueles infelizes que estavam em linha, esperando a morte. Antonio Pedro em nome da tropa pedia a cabeça deles. Onofre foi fraco e mandou fuzilar obedecendo à imposição dos cidadãos que ele, com sua voz e a sua espada em mãos, levou-os ao combate. A História o julgará!" Neste combate pereceu o capitão Francisco Pinto Bandeira, nódoa para a causa farrapa, segundo Domingos José de Almeida. Segundo Arthur Ferreira Filho "neste combate, em 22 de abril de 1836, Onofre Pires venceu e fuzilou prisioneiros, inclusive, o capitão Francisco Pinto Bandeira", este seguramente sobrinho do brigadeiro Rafael Pinto Bandeira, "a primeira espada continentina". Era mais um golpe para os Pinto Bandeira, pois três meses antes em sua fazenda, no rio dos Sinos fora assassinado o único neto varão de Rafael Pinto Bandeira, chamado Diogo. Foi assassinado em 26 de janeiro de 1836, junto com seu pai, o baiano coronel Vicente Ferrer da Silva Freire por uma escolta ao comando do capitão Manoel Vieira da Rocha - o célebre Cabo Rocha do combate da Azenda. Segundo interpretações dominantes, os criminosos fugiram ao controle do Cabo Rocha. Segundo, ainda, Arthur Ferreira Filho, autoridade em revoluções do Rio Grande do Sul e veterano da de 1923, estes crimes e outros praticados pelos imperiais "eram conseqüência do mau costume, repetido em todas as guerras civis, de confiar comandos a indivíduos fascinorosos, ignorantes e irresponsáveis. Lamentavelmente, em todas nossas revoluções têm sido entregues a bandidos, boçais alguns, outros com instrução, comandos que desonram". Do lado farrapo a maior vítima foi o general João Manoel de Lima e Silva, assassinado em São Borja, em 29 de agosto de 1837. Fernando Luiz Osório ao contar a história de seu pai, assim narra o fuzilamento do capitão Francisco Pinto Bandeira: "Quase ao mesmo tempo que se dava a tomada de Pelotas 7/8 de abril de 1836, em 9 de abril o capitão legalista Francisco Pinto Bandeira surpreendeu a noite a guarnição de Torres. Sem disparar um tiro apoderou-se do armamento e munições e capturou os soldados bem como os chefes que os comandavam. Seguiu e fez junção com Juca Ourives. Após seguiram em marcha em defesa da vila de São José do Norte sitiada pelo coronel Onofre Pires. Este avisado saiu-lhes ao encontro. Tomou boa posição e o derrotou completamente em 22 de abril. O combate fora encarniçado. Onofre Pires operou prodígios de valor. Juca Ourives conseguiu escapar com poucos homens. Trinta ficaram mortos. Depois da vitória Onofre Pires mandou fuzilar 12 prisioneiros inermes por vinganças particulares. Este fato mereceu censura do Partido Republicano. Pinto Bandeira caindo aos pés de Onofre Pires pediu que sua vida fosse poupada pois era casado e pai de 11 filhos. Onofre Pires retorquiu-lhe: - Não seja covarde, morra ao menos como bom brasileiro. E foi morto." Negou assim Onofre Pires a tradição de firmeza e doçura. Foi firme mas impiedoso. Não respeitou a vida, a honra, a reputação e a família do vencido que pertencia ao ramo dos legendários Rafael Pinto Bandeira, a primeira espada continentina ao qual muito deve o Rio Grande a definição de seu destino brasileiro, em 1776, por força das armas. Em outubro de 1836 Onofre Pires foi preso na ilha do Fanfa, junto com Bento Gonçalves e o cabo Rocha morreu na açâo. Bento aí, segundo Caldeira, criticou severamente Onofre pela situação, por ter com sua opinião pesado no Conselho de Guerra do qual resultou o desastre. Desde então, Bento e Onofre entraram em linha de colisão por esta desinteligência. Onofre esteve preso na Fortaleza de Santa Cruz, no Rio, de onde fugiu em 4 de março de 1837, depois de cerca de 4 meses de prisão. Segundo Caldeira, testemunha ocular da fuga, Onofre Pires ao fugir da prisão atirou-se ao mar com auxílio de 4 bexigas de boi para ajudá-lo a flutuar. Delas, 3 foram furadas por peixes, restando uma que ele segurava numa das mãos, enquanto com a outra deslocava água. Onofre Pires no combate de Rio Pardo, de 30 de abril de 1838, comandou a Divisão que atacou o flanco esquerdo imperial. Ao final foi encarregado de chefiar Comissão de Requisição de mercadorias pertencentes a imperiais (ou dissidentes), segundo lista que lhe foi entregue pelo coronel Bento Manuel. Segundo ainda Caldeira testemunha, Onofre não querendo passar por saqueador, assinava recibos dizendo que assim agia de ordem de Bento Manuel Ribeiro. Em 25 de março de 1840, pouco antes do combate de Rio Pardo, ele foi preso junto com o coronel Manoel Lucas de Oliveira, perto da Quinta do Bibiano, margem direita do Jacuí, junto com 60 infantes, 4 carretas de fazendas, 2 peças de Artilharia e munição. Acredito tenha sido resgatado por troca de prisioneiros. Como fez despesas na prisão, exigiu indenizaçôes das mesmas ao governo. Em 16 de julho de 1840 tomou parte no mais renhido e sangrento combate - o de São José do Norte. Combate que se constituiu no ponto de inflexão das esperanças de vitória dos republicanos, para o de descrença.




Acenos de paz
Decorrido um mês, em 17 de agosto de 1840, depois de declarada a maioridade de D. Pedro ll, este concitou os revolucionários a deporem armas. A paz não foi obtida. Militarmente as coisas andavam críticas para a Revolução. Mas a oferta de paz pelo Imperador e o vácuo de poder que ele preencheu desde a abdicação do pai, veio constituir-se num grande golpe ao ânimo farrapo. Um dos obstáculos à paz foi a recusa de libertação dos negros que lutaram pela República, o que segundo Morivalde Calvet Fagundes, provocou a seguinte reação no mineiro Ulhoa Cintral em protesto: "Homens que ombrearam conosco em defesa da Liberdade, não podem voltar ao cativeiro." Antes de se encerrarem as negociações de paz, em li de dezembro de 1840, os revolucionários sofreram rude golpe estratégico. Foram obrigados a levantar o sitio de Porto Alegre. Ao penetrar a Divisão da Serra no Rio Grande, a partir de Santa Catarina e ao comando do general Labatut, Canabarro foi enviado a seu encalço com reforços do sitio de Porto Alegre. Percebida a fraqueza do sítio, ele foi forçado a ser levantado em definitivo, em 23 de novembro de 1840, depois de estabelecido em 14 de junho de 1838. Eram finalidade estratégicas do sitio entre outras de fixar em Porto Alegre numerosos efetivos imperiais e, através da espionagem, descobrir os planos dos imperiais e controlar o litoral, Cima da Serra e manter comunicações com Santa Catarina e São Paulo. Em dezembro de 1840, Domingos José de Almeida previu a situação crítica com esta estimativa confirmada: Só o braço de Deus terá poder de sustentar o edifício que pende para o lado."




Onofre Pires na oposição
Dentro de um quadro bastante adverso à República, ela foi instalar-se em Alegrete. Em 9 de novembro de 1842 assumiu a Presidência do Rio Grande e o Comando-des-Armas, o futuro Duque de Caxias. Logo em seguida instala-se, em 1o de dezembro, a Assembléia Constituinte da República Rio-Grandense, em Alegrete. Da minoria opositora, 1/6 dos constituintes, fez parte o deputado Onofre Pires. Foram realizadas reuniões turbulentas, só interrompidas em 10 de fevereiro de 1843, quando Caxias atuou contra Alegrete. Sete dias antes Antonio Paulino da Fontoura, personagem muito controvertida e um dos vice-presidentes da República, foi atacado, vindo a falecer no dia 13 de fevereiro. Antes de morrer declarou saber quem o mandara matar e o perdoava. Seu parente Antonio Vicente da Fontoura e líder da minoria oposicionista atribuiu o crime a um marido ciumento. Onofre Pires ao que parece passou a tentar mesmo arrasar Bento Gonçalves no seio da tropa, acusando-o, inclusive, de mandar matar Antônio Paulino, como era seu costume arrasar as pessoas em suas ausências. A oposição foi num crescendo e Bento Gonçalves, alegando doença passou a Presidência a Gomes jardim e o Comando-em-Chefe do Exército a Canabarro, junto aos quais deixou seu amigo, coronel José Mariano de Mattos. A oposição a que Onofre Pires pertencia, em 17 de fevereiro de 1843, firmou humilhantes referências a Bento Conçalves. Este quadro agravou-se ainda mais com a adesão pela segunda vez, ao Império, de Bento Manuel, depois de dois anos de neutralidade. Isto acelerou ainda mais "a queda do edifício" da República.




Duelo Bento Gonçalves x Onofre
Decorrido um ano da morte de Antonio Paulino, o Exército acampou em Topador atual nas pontas do Sarandi, próximo a Santaáa, atual. Onofre Pires falava abertamente tudo o que sentia em relação a Bento Gonçalves e no seio da tropa. Bento em carta pediu que Onofre confirmasse ou não, por escrito, as acusações ofensivas à sua honra feitas em presença de terceiros. Onofre logo respondeu no outro dia confirmando, abrindo mão de suas imunidades parlamentares e colocando-se à disposição de Bento no local que este saberia encontrá-lo. Isto equivalia a um duelo, hipótese desejada por Onofre Pires que levava grande vantagem no seu porte atlético e com menos 10 anos de idade (44 x 54 anos). Bento Gonçalves procurou Onofre Pires e o desafiou para o duelo. Juntos afastaram-se meia légua - dia 27 de fevereiro de 1844. Chegando ao local, entre outras trocas de palavras, Bento falou a Onofre que não tinha mandado matar Paulino da Fontoura. E se tivesse necessidade tería recorrido a um duelo como agora faria com ele. Mesmo antes do duelo, Bento já dominava com seu carisma, o temperamental primo que ali servia de instrumento de terceiros, talvez até inconscientemente. Iniciado o combate, Bento atingiu Onofre no antebraço direito o que interrompeu o duelo. O fato sem testemunhas tem provocado diversas versões. Sobre esta, escreveu mais tarde o brigadeiro imperial José Gomes Portinho que fora destacado líder militar farrapo e insuspeito por amigo e cunhado de Antônio Vicente da Fontoura. "Onofre foi ferido no braço direito. O mesmo Bento Gonçalves tratou da ferida, atando-a com seu próprio lenço, sendo Onofre conduzido para o campo e dai a sua casa (barraca) onde morreu passados dois dias. E isto por falta de médico. Não havia." Outro farrapo diz que "ficou um lanceiro cuidando de Onofre Pires e Bento foi buscar recursos". Ambos o dão como morto em 1o de março, dois dias depois. Antônio Vicente da Fontoura registrou dia 3 de março, ou quatro dias depois e de gangrena e que Bento foi preso por Canabarro. Bento Gonçalves em carta a Domingos José de Almeida, de 9 de março de 1844 escreveu: "Já meu compadre saberá do fim desastroso que teve o coronel Onofre que fazia o papel de general Santérre na facção desorganizadora, que o incitou a provocar-me tão atrevidamente. Ela contava com a vitória, porque olha para as coisas como lhe parecem, e não como são de fato. A paixão os domina e, por isso, vendo aquele homem tão corpulento, o julgaram um gigante e eu um pigmeu. - Enganaram-se e, depois escondendo todos o rabo, se retiraram dele, ao ponto de não achar-se um só desses malvados a seu lado, ao menos na hora da morte. Que malvadeza! Eu lamento sua sorte, mas não tenho o menor remorso, porque obrei como verdadeiro homem de honra. Em tais casos, obrarei sempre assim, nio me importando com o tamanho, e nem a nomeada (fama) da pessoa que se atreva a atacar a minha honra." E assim teve fim Onofre Pires, cujos restos mortais devem estar em algum lugar nas pontas do Sarandi, atual Topador em Santana. É uma vida que merece reflexão. Caxias por ocasião do duelo marchava de Alegrete, para Santana, conforme suas ordens-do-dia. Onofre falecia quase oito anos depois do rumoroso fuzilamento que ordenou em Mostardas, no qual foi vitima ilustre o capitão Francisco Pinto Bandeira. Seria a confirmação do ditado popular - Quem com ferro fere, com ferro será ferido? Onofre Pires fez parte da minoria opositora (cerca de um 1/6) a Bento Gonçalves, na Assembléia Constituinte da República Rio-Grandense, em Alegrete. Seu perfil moral parece não ter feito honra a oposição que integrou e o usou como instrumento contra Bento Gonçalves, em momento critico da Revolução.

ANTÔNIO DE SOUZA NETO

"Aqui descansam os restos mortais do Brigadeiro Antônio de Souza Neto, falecido na cidade de Corrientes em 1.0 de julho de 1866". É o que se lê na lápide do mausoléu do proclamador da República Rio-Grandense, no cemitério de Bagé, para onde foram transladados e definitivamente guardados a 29 de dezembro de 1966.

Nascido em Povo Nôvo, distrito do Município do Rio Grande, a 11 de fevereiro de 1801, provinha de troncos açorianos e paulistas. Seu pai, o estancieiro José de Souza Neto, nascido no Estreito em 1764, era filho de açorianos - Francisco de Souza Soares e dona Ana Alexandra Fernandes; sua mãe, dona Teotônia Bueno da Fonseca, natural de Vacaria, era filha de paulistas descendentes de bandeirantes - Salvador Bueno e dona Inácia Antônia Bueno.

Mas foi em Bagé que Antônio de Souza Neto desenvolveu a maior parte de sua enorme atividade de guerreiro defensor da Liberdade, da República, da dignidade do Brasil Império que êle profundamente amava como sua Pátria, mas detestava como monarquia. E por isso, feita a paz de Poncho Verde a l de março de 1845, que pos fim à República Rio-grandense por êle proclamada a 11 de setembro de 1836, destinada a unir-se a todo o Brasil republicano, concordou com os chefes da República que findava para a pacificação do Rio Grande, mas se retirou para Corrientes, República Argentina, exilado voluntário, mas sempre atento às atividades político-sociais do Brasil.

Estancieiro no Uruguai, com seus campos talados e vazios que tudo lhe levara a Revolução Farroupilha a que se dedicara de corpo e alma - para aí se transportou após alguns anos de repouso em Corrientes. E, nas margens do Queguaí, ao norte de Paissandu, tornou-se, em breve, por sua capacidade de trabalho e inteligência, adiantado estancieiro.

Mas jamais abandonou sua terra natal e seu povo. Sempre de olhos atentos, de quando em quando visitava a sua Bagé dos Campos do Seival, onde proclamara a República Rio-Grandense, tomando conhecimento direto dos acontecimentos. E daí saiu, em 1851, com sua cavalaria Brigada de Voluntários Rio-Grandenses - que organizara à sua custa inteiramente, para os campos da luta contra a ditadura de Rosas, o que lhe valeu a promoção a Brigadeiro Honorário do Exército Brasileiro, e a transformação de sua Brigada de Voluntários Gaúchos, em Brigada de Cavalaria Ligeira. Vencido o ditador, voltou à sua estância em Queguaí, para novamente regressar ao Rio Grande do Sul, em 1864, como representante dos estancieiros brasileiros no Uruguai - estancieiros residentes aí -, a fim de apresentar ao govêrno imperial as q ueixas contra assassínios e roubos ali praticados contra êle e seus concidadãos.

Aliás, já em 1859 havia reclamado, violentamente declarando que, se o govêrno imperial não tomasse providências, êle, Neto, organizaria sua fôrça e assumiria a responsabilidade de invadir o Uruguai e vingar seus concidadãos. Regularizada a situação, com contemporarizações, e algumas medidas preventivas, em breve tudo voltou ao que era dantes e, novamente agredidos com violência, tornou ao Rio Grande do Sul, mas desta vez com podêres maiores. E, com êsses podêres, foi ao Rio de Janeiro e aí, na côrte, onde foi acolhido com bastante afeto, depôs as queixas perante S. M. D. Pedro II. Pouco mais tarde, à frente de sua Brigada de Cavalaria Ligeira, fazendo a vanguarda do Exército, sob o comando do Marechal João Propicio Menna Barreto, invadia o Estado Oriental do Uruguai, - em auxílio do Presidente eleito da República, Don Venâncio Flores, tomando parte no assalto às trincheiras de Paissandu, onde também se sagrou, no ataque por água, o imperial marinheiro Marcílio Dias, recebendo seu batismo de fogo.

Dessa campanha somente regressou a 20 de fevereiro de 1865 para trabalhar com seus patrícios contra o invasor paraguaio. Sua cavalaria ligeira, nos rencontros entre São Borja e Uruguaiana, até a rendição a 18 de setembro de 1865, ostentou, sempre, ao lado da imperial bandeira do Brasil, o pavilhão tricolor da República Rio-Grandense. Aliás, nessa sua fôrça eram numerosos os oficiais e soldados que o haviam acompanhado durante a Revolução Farroupilha.

Em seguida, incorporada a sua fôrça ao Exército do General Manoel Luís Osório, comandante em chefe das tropas em ação no Rio Grande do Sul, Neto transpôs, logo após a rendição de Uruguaiana, o rio Uruguai, marchando por terra até o território paraguaio. E aí, batendo-se com excepcional bravura em Estero Bellaco a 2 de maio de 1866, e depois em Tuiuti a 24 do mesmo mês e ano, foi gravemente ferido. Transportado para o Hospital Militar de Corrientes, faleceu a 1 de julho do mesmo ano, naquele nosocômio.

Antônio de Souza Neto, tropeiro de profissão, soldado por imposição da Pátria, - primeiro a Pátria Rio-Grandense e depois a grande Pátria Brasileira, - passou sua existência a serviço da liberdade e da justiça, para o bem do Brasil e do Rio Grande do Sul.

Iniciando sua vida de estudante em Pelotas, com seus irmãos Rafael e Domingos, foi em seguida para Bagé, onde se dedicou à criação de gado. Tropeiro, percorria o Rio Grande e o Estado Oriental, sendo por seu caráter, por sua dignidade e apresentação pessoal, querido e respeitado por todos. Afeiçoado às carreiras, possuía o melhor plantel de cavalos de corridas em cancha reta.

Como todo o rio-grandense que se prezava, naqueles tempos, também Antônio de Souza Neto se apresentou e foi soldado. Aos 28 anos de idade era capitão de segunda linha. E antes de completar 35 era coronel de legião, em Bagé, onde dia a dia aumentava de prestígio por seu valor, capacidade e inteligência, a par de um coração boníssimo, sempre pronto a proteger o fraco contra as injustiças, e a justiça contra as violências.

o movimento farroupilha, organizado e dirigido por Bento Gonçalves da Silva, encontrou Antônio de Souza Neto já preparado para a defesa dos direitos e liberdades do Rio Grande. E quando rebentou a Revolução, a 20 de setembro de 1835, o valoroso coronel comandante de legião da Guarda Nacional de Bagé de imediato organizou, auxiliado por José Neto, Pedro Marques e Ismael Soares da Silva, o corpo de cavalaria que um ano mais tarde se destacaria nos Campos do Seival, derrotando o grande cabo de guerra imperial General João da Silva Tavares e proclamando a República Rio-Grandense, livre e independente, para livrar o povo rio-grandense "a não sofrer por mais tempo a prepotência de um govêrno tirano, arbitrário e cruel como o atual".

Promovido a General da República Rio-Grandense, o grande amigo e admirador de Bento Gonçalves da Silva pouquíssimas vêzes foi vencido durante aquêles quase dez anos de lutas constantes de um país inteiro, bem armado e municiado, contra um pugilo de homens livres do Rio Grande do Sul que, sem jamais tirarem os olhos da grande Pátria, preferiam a morte a um acôrdo desairoso.

E foi ainda Antônio de Souza Neto que, na primeira tentativa de pacificação, em novembro-dezembro de 1840, proposta por Francisco Alvares Machado em nome do govêrno imperial, respondeu à consulta de Bento Gonçalves: - "Enquanto tivermos mil piratinenses e dois mil cavalos, a resposta será esta", dissera, pondo a mão direita nos copos de sua espada, porque as propostas não haviam sido feitas com muita lisura e estavam muito aquém da dignidade daqueles heróis que se batiam contra o Império, sacrificando tudo por um ideal: saúde, família, bem estar, fortuna e propriedades.

O semanário ilustrado de Pôrto Alegre, 'Sentinela do Sul', n.' 7, de 18 de agôsto de 1867, publicando uma bela litografia de I. Weingaertner, retrato do Brigadeiro Antônio de Souza Neto, assim termina seu comentário biográfico do proclamador da República RioGrandense:

- "Faleceu, pois, o General Neto no cumprimento do mais sagrado dos deveres; e tanto mais apreciável é a sua dedicação quanto é certo que a sua extraordinária riqueza e o prestígio de que gozava o tornavam de tal maneira independente, que tudo quanto fêz foi inteiramente espontâneo e somente inspirado pelo amor à Pátria".

Realmente, Souza Neto, que se iniciara na vida pública como tropeiro, depois de ter pequena fortuna, entregou-se inteiramente aos ideais políticos consagrados na República Rio-Grandense. Depois, reiniciando e reconstituindo sua fortuna, residindo e com propriedade enorme fora da Pátria, nada mais precisava fazer, e tanto assim que, apesar de pequenas perseguições a agregados seus, fôra sempre respeitado e temido no Uruguai, abalou-se, a bem da justiça, de sua estância e novamente, de armas em punho, defendeu os direitos do Brasil, primeiro, contra Rosas, depois contra Aguirre e, finalmente, contra Solano López, do Paraguai.

E aí faleceu, vitimado em combate, no imortal combate de Tuiuti, onde outro gaúcho de fibra, Osório, brilhou mostrando ao mundo o valor, a inteireza e a nobreza do povo sul-rio-grandense.

Antônio de Souza Neto, como Manoel Luís Osório, são autênticos símbolos de um povo e legítimos guias da mais briosa cavalaria do mundo: a Cavalaria do Rio Grande do Sul, - hoje colocada à margem pela motorização, pelos cavalos-vapor... menos belos, menos brilhantes, mas mais temerosos.

OS SÍMBOLOS DO RIO GRANDE

A Lei estadual de número 5213/66 define e regula os símbolos oficiais do Rio Grande do Sul. São eles: a bandeira, o hino e as armas. O movimento armado dos farrapos contribuiu de forma expressiva nas decisões que norteiam os símbolos oficiais do Rio Grande do Sul.

A bandeira, originalmente, só apresentava os três panos de cores verde, vermelho e amarela. A partir de 1889, quando os republicanos assumiram o poder político do estado, foi incluída uma elipse vertical em pano branco, no centro, onde estão as armas, de profunda inspiração positivista.

Quanto ao hino, o artigo sétimo da Lei determina "...o que se compõe da música de Joaquim José de Mendanha, com harmonização de Antônio Corte Real e orquestração do mesmo para piano, orquestra e banda, com versos de Francisco Pinto de Fontoura, estes de forma abreviada consagrada pelo uso popular; a primeira a última estrofes do poema original com o estribilho".

 

 A ORIGEM DOS TERMOS XIMANGO E MARAGATO

MARAGATO


O termo tinha uma conotação pejorativa atribuída pelos legalistas aos revoltosos liderados por Gaspar Silveira Martins, que deixaram o exílio, no Uruguai, e entraram no RS à frente de um exército.

Como o exílio havia ocorrido em região do Uruguai colonizada por pessoas originárias da Maragateria (na Espanha), os republicanos apelidaram-nos de "maragatos", buscando caracterizar uma identidade "estrangeira" aos federalistas.

Com o tempo, o termo perdeu a conotação pejorativa e assumiu significado positivo, aceito e defendido pelos federalistas e seus sucessores políticos.

O lenço VERMELHO identificava o maragato.

CHIMANGO




A grafia pode ser ximango. Ave de rapina, falconídea, semelhante ao carcará.

Epíteto depreciativo dado aos liberais moderados pelos conservadores, no início da Monarquia brasileira. No RS, nos anos de 1920, foi a alcunha dada pelos federalistas ao governistas do PRR.

O lenço de cor BRANCA identificava os chimangos.



Dicionário de Regionalismos do Rio Grande do Sul
Zeno Cardoso Nunes
Rui Cardoso Nunes


MARAGATO




Denominação dada ao revolucionário ou partidário da revolução rio-grandense de 1893, adepto do credo político pregado por Gaspar da Silveira Martins e adversário do partido então dominante, chefiado por Júlio Prates de Castilhos. || Revolucionário ou partidário da revolução rio-grandense de 1923, adepto do partido liderado por Joaquim Francisco de Assis Brasil e contrário a Antônio Augusto Borges de Medeiros, governador do Estado. || Federalista.

"Na província de León, Espanha, existe uma comarca denominada Maragateria, cujos habitantes têm o nome de maragatos, e, que, segundo alguns, é um povo de costumes condenáveis; pois, vivendo a vagabundear de um ponto a outro, com cargueiros, vendendo e comprando roubos e por sua vez roubando principalmente animais; são uma espécie de ciganos.

Aos naturais da cidade de São José, no Estado Oriental do Uruguai, dão neste país o nome de maragatos, talvez porque os seus primeiros habitantes fossem descendentes de maragatos espanhóis. Pelo fato de os rebeldes em suas excursões irem levantando e conduzindo todos os animais que encontravam, tendo apenas bagagens ligeiras, cargueiros, etc. Como os da Maragateria e porque (com exceções) suspendiam com o que encontravam em suas correrias, aplicou-se-lhes aquela denominação, que aliás eles retribuíram com outras não menos delicadas aos republicanos, a despeito da correção em geral observada por estes em toda a luta." (Romaguera).

"Ainda hoje (l 897), que 11 séculos são decorridos, os maragatos constituem um nódulo distinto no meio da população lionesa. São ainda os bérberes antigos: usam a cabeça raspada, com uma mecha de cabelo na parte posterior; falam uma linguagem que não é bem castelhana, a qual apresenta uma pronúncia arrastada, dura e lenta, e são geralmente arredios." (Oliveira Martins, apud Vocabulo Sul-RioGrandense, P.A., Globo, 1964, p. 289).

"Trouxera consigo, além do irmão Aparício, um grupo de maragatos do Departamento de S. José, nome por que eram conhecidos os imigrantes de certa região da Espanha, e, que, pelo prestígio do chefe, se extendeu a todos os rebeldes da Revolução Federalista e até, posteriormente, a qualquer adversário da situação castilhista do Rio Grande." (Arthur Ferreira Filho, Revoluções e Caudilhos, 2a ed., Passo Fundo, p. 34).

"J. F. de Assis Brasil, o velho líder político maragato, lança "A Atitude do Partido Democrático Nacional na Crise da Sucesso Presidencial do Brasil", um trabalho que merece ser lido e meditado" (Pedro Leite Villas-Bôas, Um Quarto de Século de Literatura Rio-Grandense - 1929-1954", in Revista da Academia Rio-Grandense de Letras, n9 I, P.A., 1980, p. 125).

"Velho tropeiro Vicente,
que amas tuas origens...
fibra de velhas raizes,
em solo duro e ingrato.
Teimoso remanescente
duma raça em extinção...
És caudilho maragato
sem armas nem munição,
peleando valentemente
na defesa deste chão!"
(Cardo Bravo, Rebeldia, poema).

CHIMANGO


Alcunha dada no Rio Grande do Sul aos partidários do governo na revolução de 1923|| Ave de rapina muito comum na campanha riograndense, parecida com o carcará, porém menor do que este.



 





 




 








 






 


 



 


 

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